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COMO SE TORNAR UMA REFERÊNCIA NO MERCADO PENSANDO EM ECONOMIA CIRCULAR

Como a economia circular está ajudando na gestão de resíduos

Considerada uma das mais interessantes e inovadoras maneiras de lidar com o planeta desenvolvidas nas últimas décadas (sob uma dinâmica na qual crescimento econômico e bem-estar não estão ligados a consumo exacerbado e extrema utilização dos recursos naturais), a economia circular tem sido cada vez mais adotada como ferramenta para gestão de nossos resíduos, uma das grandes questões da atualidade.

Segundo levantamento da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), o Brasil produz 79,9 milhões de toneladas de lixo por ano, em média. De acordo com o Plano Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), cerca de 30% de todo o lixo produzido no Brasil tem potencial de reciclagem, mas apenas 3% de fato é reaproveitado. “As pessoas estão percebendo que podemos fazer mais. Estamos em uma transição em que a gestão de resíduo deixa de ser gestão de lixo e passa a ser gestão de recursos.

É pensar aberto: como é que hoje a maior rede de hospedagem do mundo é Airbnb? Ou que existam grandes empresas de transporte urbano como a Uber e Cabify, que não são proprietárias de frota? São esses conceitos que precisamos trazer para a gestão de resíduos. É a criatividade que precisamos despertar, não só em cada um, mas despertar no próprio governo, em parceria com iniciativa privada, para oferecer esses tipos de solução”, explica Carlos Silva Filho, presidente da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), em entrevista ao Estadão.

Iniciativas de sucesso pensando em economia circular

Um exemplo desta mudança de comportamento do mercado é a Ecozinha, projeto criado em Brasília por alguns restaurantes logo após a aprovação da uma que lei que transfere para estabelecimentos comerciais a responsabilidade da destinação dos resíduos produzidos. A iniciativa instalou caçambas e coletores para a separação do lixo reciclável nos restaurantes (resíduos posteriormente recolhidos pelo Sistema de Limpeza Urbana). Como o Distrito Federal não possui espaços para o descarte de vidro, o projeto firmou parceria com a ONG Green Ambiental que faz a coleta e o transporte para usinas de reciclagem em São Paulo. Para cuidar do lixo orgânico, composteiras foram instaladas em um pátio alugado para uso comum e o adubo ali produzido é destinado para agricultores locais. Em resumo, o lixo produzido nos restaurantes é utilizado na produção dos alimentos que serão comprados e consumidos nos restaurantes. Um círculo extremamente positivo que beneficia diversos personagens da cadeia produtiva. “A gestão de resíduos começa no início da cadeia, usando menos recursos para fazer seu produto. Economia circular não é só reciclagem: é já produzir de maneira modular para, na hora que tiver problema, é só fazer manutenção, trocar peça, não precisa de um novo produto”, explica Davi Bomtempo, Gerente Executivo de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Confederação Nacional da Indústria (CNI), também em entrevista ao Estadão.

Imitando a natureza

Lançada em setembro de 2018, a ZEG Ambiental é uma empresa brasileira que desenvolveu um reator que transforma resíduos em gás sem poluir o ar com fumaça ou fuligem, por exemplo. “Imitamos a natureza. Ela decompõe os materiais orgânicos e os transforma em querogênio, que depois é transformado em óleo e gás. Só que esse processo demora milhões de anos, com sobreposição de camadas promovendo uma atmosfera com ausência de oxigênio. A gente faz exatamente isso, só que dentro de um reator”, explica André Tchernobilsky, sócio-fundador da empresa, em entrevista ao Jornal GGN.

O reator tem capacidade de converter até 50 toneladas de sólidos/dia e base seca em fonte de energia. Tchernobilsky explica que o equipamento trabalha com temperaturas acima de 1 mil graus, que facilita a quebra da cadeia molecular dos resíduos. O gás produzido pode ser diretamente injetado no sistema de Geração Distribuída criando energia renovável. A Nexa, empresa do setor mineral, é a primeira a fazer uso da iniciativa substituindo o uso de combustível fóssil (gás natural e óleo) por resíduos em seu processo produtivo. “O que nós já percebemos, e está acontecendo com muito volume, é uma procura para apresentarmos projetos que sejam economicamente e ambientalmente sustentáveis, e percebemos [essa movimentação de] fundos e parceiros locais, brasileiros e também organismos internacionais procurando bons projetos para que a gente possa criar essa economia circular positiva”, afirma Daniel Rossi, presidente da ZEG.

Um outro olhar para inovação

A HP é outra empresa que está tentando adequar sua cadeia produtiva à economia circular. Por meio da operação integrada com as empresas fornecedoras Flextronics e Sinctronics, a multinacional consegue reutilizar em seu processo de produção o plástico que já esteve nas impressoras e nos cartuchos. De acordo com Judy Glazer, diretora global de sustentabilidade da marca, mais de 7,7 milhões de produtos da marca foram fabricados no país com conteúdo reciclado. “Estamos no processo de tornar o processo produtivo muito mais circular do que linear. Temos a aspiração de nos tornarmos uma companhia lixo zero, com decisões que possam direcionar o negócio e ter um impacto positivo de longo prazo. Outra meta é eliminar o uso de matérias-primas virgens no processo produtivo”, afirma em entrevista à Folha de S. Paulo. “É uma aspiração, um objetivo de longo prazo que vai provocar a inovação. Temos um longo caminho, mas colocar isso como meta é um invocativo poderoso. Queremos chegar a 100% de uso de materiais reciclados e de origem renovável nos produtos”, acrescenta.

Para entender melhor sobre economia circular

No curso online de Design Sustentável, Eloisa Artuso reforça que, para conseguirmos transformar um sistema linear em circular, precisamos trazer novas abordagens para os negócios, levando em consideração a longevidade dos produtos, os impactos deles e dos processos de produção, e o fim da vida útil deles, como eles serão descartados e reinseridos em novos ciclos de produção. Para isso, é preciso que tenhamos um olhar sobre o sistema todo, e que passemos a criar novas parcerias entre marcas e designers, com vários atores da indústria, para que esses ciclos comecem a se fechar de uma forma harmônica. Para calcular e mitigar o impacto social e ambiental dos produtos e serviços, ela traz conceitos como ACV (Análise de Ciclo de Vida), Cradle to Cradle e Logística Reversa, pensamentos e propostas que devem estar com as marcas ao lançar um produto ou serviço.

Todos estes exemplos só comprovam o quanto a economia circular é mobilizadora enquanto modelo de desenvolvimento econômico, industrial e social. Mais do que isso, mostram que é possível mantermos uma relação produtiva, equilibrada e saudável com o planeta.

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