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DA EXCLUSIVIDADE À INCLUSÃO: UMA NOVA VISÃO DO LUXO

Por Sabina Deweik, do time Humans Can Fly e professora e colunista da Escola São Paulo. 

Quando você pensa em luxo, o que vem a sua cabeça? Exclusividade, status, ostentação, marca? Este conceito vem passando por grandes transformações, acompanhando também as grandes mudanças de comportamento da sociedade. 

Existe hoje uma nova relação entre preço e valor. Na década de 80, por exemplo, aquilo que tinha um preço elevado, tinha um valor alto. Preço e valor tinham uma relação quase que direta, linear. Hoje, nem tudo que tem um preço elevado tem grande valor para as pessoas. Muito pelo contrário. Há experiências de grande valor que são gratuitas ou extremamente acessíveis: fazer download de suas músicas preferidas, ter conexão wi-fi, tomar uma xícara de café com seu melhor amigo ou simplesmente poder se desconectar.
Grande parte das pessoas está deixando para trás o velho conceito do que é luxo no qual o sentido era ter algo que denotava status social. O exibicionismo vai dando espaço para o consumo de luxo ligado a experiências autênticas e empáticas.  

Essa nova visão, me remeteu a um documentário que assisti recententemente: “Minimalism: a documentary about the important things” (Minimalismo: um documentário sobre as coisas importantes), disponível na Netflix. No filme, os amigos de infância Joshua Fields Millburn e Ryan Nicodemus, os personagens principais, resolvem largar uma carreira estabelecida e um cargo no qual ganhavam um salário de dois dígitos para viver com mais satisfação e menos coisas. A partir daí, escrevem um livro sobre essa experiência e partem para uma viagem pelos EUA para promover o livro. 

Há quem critique a visão de que reduzir, ter menos poder financeiro, trará mais felicidade. Porém, analisando o documentário do ponto de vista dos movimentos sociais emergentes, me dou conta da importância deste tema na atualidade.
Ao longo do filme, especialistas de diversas áreas mostram alguns motivos pelas quais povos ocidentais perpetuam o fenômeno do consumismo desenfreado: a propensão a comprar compulsivamente por conta de sentimentos positivos que este hábito proporciona, a publicidade e o barateamento de produtos, como roupas e eletrônicos. Um dos autores e pensadores que admiro muito, Gilles Lipovetsky se debruça sobre essa questão pontuando no livro A Era do Vazio os efeitos da cultura na qual estamos inseridos: “A cultura pós-moderna é voltada para o aumento do individualismo, diversificando as opções de escolha, cada vez mais opções de escolha sobre tudo em uma sociedade de consumo; levando a perda de uma visão crítica sobre os objetos e valores que estão a nossa volta”. Sobre essa questão do valor venho me questionando imensamente: Qual o valor de X na minha vida? Para que?  consumo consciente coolhuntingQuestionar-se sobre o “para que” e não sobre o “porque” de algo abre uma perspectiva de qual o real valor daquela coisa, daquela experiência para cada indivíduo. Assim, a ideia perpetuada até hoje de que os bens devem ser consumidos mais rapidamente e em maior volume vai se desconstruindo. O Lowsumerism (união das palavras em inglês “low“- baixo com “consumerism” – consumismo), tendência crescente, vêm confirmar estas novas direções. O movimento, que vem ganhando adeptos em todo o mundo, tem como proposta repensar a lógica de consumo na busca por mais consciência e equilíbrio na hora de comprar.  

Ele se instala como uma alternativa a nossa herança consumista desde a Revolução Industrial e do modelo Fordista (nome em homenagem ao criador do método, o americano Henry Ford), que disseminava a produção em série.

Desde lá, a sociedade e o ideal de consumo foi crescendo com o chamado sonho americano e o atual esgotamento do planeta.  

Por coincidência ou não, este ano de 2018, mais especificamente o dia 1 de agosto, foi considerado pela ONG Global Footprint Network, o dia da sobrecarga da terra: em apenas 212 dias de 2018, os 7,4 bilhões de habitantes do Planeta Terra esgotaram os recursos naturais de comida, água, fibra, solo e madeira disponíveis para os 365 dias do ano. Traduzindo em miúdos: a humanidade está em dívida com a natureza. De acordo com a ONG, se não mudarmos nosso padrão de consumo, antes de 2050 precisaremos de dois planetas Terra para conseguir suprir todas as nossas necessidades. Quando pensamos nesta escala de valores, nos damos conta de que o Lowsumerism não é nem mesmo uma tendência. Eu chamaria de emergência. 

No rastro do Lowsumerism surgem outros movimentos como o upcycling; o reaproveitamento de materiais antigos ou que seriam descartados e a economia do compartilhamento; a sharing economy. A era da posse dá lugar a era do acesso: Uber, Airbnb, Coworking, bicicletas compartilhadas, Spotify, Netflix. Hoje é possível alugar uma incrível bolsa de uma marca de luxo e devolvê-la para que outro use, é possível se hospedar numa casa dos sonhos por um bom custo-benefício através de ferramentas como o Airbnb ou ainda trabalhar em um local incrível e conhecer pessoas, como é o caso dos co-workings, sem precisar pagar uma fortuna por um escritório.  Você usufrui, mas não possui. O desejo de consumo não cessa, apenas você não tem mais a posse do produto. Segundo as projeções da consultoria PwC, a economia compartilhada deverá movimentar mundialmente US$ 335 bilhões até 2025 — 20 vezes mais do que se apurou em 2014, quando o setor movimentou US$ 15 bilhões.Consumo consciente empreendedorismo cool huntingNeste sentido, as novas gerações têm sido extremamente importantes para este impulsionamento e para a ressignificação do luxo, imprimindo valores como sustentabilidade, propósito, autenticidade e transparência. 

No relatório “Millennials Drive The Sharing Economy”, conduzido pelo analista da Forrester Jonathan Winkle, a taxa de uso dos Millennials em negócios compartilhados é mais do que quatro vezes maior do que a dos Baby Boomers. Os dados revelam de fato que os Millennials impulsionam a economia compartilhada, em parte porque detêm valores diferentes dos consumidores mais antigos. 

As gerações mais jovens gastam mais em experiências do que em produtos materiais. 

Sinal dos novos tempos é o evento recém lançado em junho de 2018 em Arnhem, Holanda, o State of Fashion, uma iniciativa que apoia e ativa a busca mundial por uma indústria da moda mais justa, limpa e sustentável, conectando designers, empresas, governos, instituições educacionais e consumidores de moda e têxtil. Com o tema “Buscando o Novo Luxo”, as novas definições são exploradas como resposta às urgentes demandas ecológicas e sociais de hoje: menos desperdício e poluição, mais igualdade, bem-estar e inclusão – valores muito cultuados tanto pela geração dos Millennials como pela geração z.  

É dentro deste contexto que o luxo exclusivo vem dando lugar ao luxo acessível e inclusivo. Entramos na era dos Experiential Seekers – consumidores que passam a ter valores pós-materialistas e buscam por experiências intensas e com significado. E para você o que é o verdadeiro luxo?  

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LIDERANÇA HOLÍSTICA – ACOMPANHANDO O MUNDO EM TRANSIÇÃO

Por Luah Galvão, do time Humans Can Fly e colunista da Escola São Paulo. 

O mundo está mudando, rumando para um cenário cada vez mais autêntico e múltiplo – diferente de todas as épocas anteriores. Como diz o filósofo, cientista interdisciplinar e prêmio Nobel da Paz Ervin Laszlo em seu livro “Um Salto Quântico no Cérebro Global”: 

“Defrontamo-nos com uma nova realidade, tanto individual como coletivamente. A mudança se dá porque o mundo humano tornou-se instável e não mais sustentável. Mas a revolução da realidade abriga uma oportunidade única: essa é a primeira década da história que nos oferece a escolha entre ser a última de um mundo desvanecente e obsoleto, ou a primeira década de um mundo novo e viável. A realidade emergente é radicalmente nova, intrinsecamente surpreendente e anteriormente imprevista. Vivemos a era da macromudança.”  O livro, excelente por sinal, é um tratado sobre os tempos modernos e os papéis da economia, política e da sociedade frente ao novo contexto. Diante desse cenário tão disruptivo, escolhi conversar sobre o papel da liderança, que acredito, também deva romper com paradigmas obsoletos e avançar para um formato mais autêntico.

Mas afinal, quais os contornos da nova da liderança? Vamos tatear juntos? 

Vejo no horizonte uma nova onda se formando, acredito que o foco da liderança, hoje em gestão de pessoas, vai começar a dividir o palco com a gestão holística. É isso aí, a “liderança holística” começa ganhar espaço em estudos, metodologias e novas ferramentas de governança.  

O interessante é que muita gente ainda trata o holismo com um certo preconceito, atribuindo a tudo que é “holístico” falsas percepções. Legal então definirmos o termo antes de seguir: A palavra holístico foi criada a partir do termo “holos”, que em grego significa “todo” ou “inteiro”. Já o conceito holismo foi criado por Jan Christian Smuts em 1926, que o descreveu como a  “tendência da natureza de usar a evolução criativa para formar um “todo” que é maior que a soma das suas partes.” Já a visão holística é a visão global, oposta à lógica mecanicista que é compartimentada, causando a perda da visão total. Abro novas aspas para Ervin Laszlo:  “Chegou a hora de mais uma mudança: de uma civilização de Logos (Razão) para uma civilização de Holos (Todo).
Atingir uma civilização de Holos significa passar por uma transformação que é única na História, mas que é mais rápida do que qualquer transformação que tenha ocorrido no passado. Por causa da velocidade com a qual a macromudança global de hoje está se desenvolvendo, muitas pessoas não conseguem acompanhar essas transformações: para eles, uma civilização de Holos parece utópica. No entanto, há pessoas para quem a cultura holística já é norma. E há muito mais dessas pessoas do que podemos imaginar.”

Uma vez que o holismo está alinhado à uma visão global e sistêmica, a liderança holística é a promessa de um modelo mais autêntico e integral, com olhos no futuro e nos desdobramentos da macromudança. Pedi reforço com o tema e entrevistei a consultora  Darlene Dutra– diretora do Instituto POTHUM e idealizadora dos Programas 4TOUCH, TI Talento e SOS Liderança. 

A primeira coisa interessante a citar é que quando trago a palavra liderança, gostaria de ampliar o foco para além dos líderes corporativos ou políticos, e Darlene me ajuda nessa expansão, contextualizando os líderes e a liderança dos novos tempos:

“Líderes não são apenas aqueles em posição de gerência, coordenação, supervisão ou chefia, mas todos que de alguma forma, seja através do conhecimento, da atitude ou forma de ser, lideram pessoas, ideias e atividades.

A liderança está em uma importante fase de transição. Hoje o acesso à informação foi amplificado, tornando a liderança mais exposta, e seu papel ainda mais desafiador. O aumento considerável da complexidade que envolve os tempos modernos – representada pela revolução tecnológica, globalização econômica, diversidade cultural, etc, convida a liderança a transcender as fronteiras de seu modelo tradicional e se reconstruir para atender essa nova realidade.”  

E emenda “Nos novos tempos, os líderes são e serão ainda mais reconhecidos por seus princípios e valores – não negociáveis, e pela maior consciência de si e da missão que carregam. Holísticos por apresentarem uma visão muito mais ampla da organização ou do contexto em que estão inseridos, levam em consideração a interdependência entre os aspectos econômicos, humanos, sociais, ambientais e políticos. Suas decisões consideram variáveis que transcendem os negócios e efetivamente seus lucros, preocupam-se verdadeira e estrategicamente com a sustentabilidade social, ambiental e com os efeitos coletivos que promovem, tanto para essa geração quanto para as futuras. Estão atentos não somente aos resultados em si, mas como estes são obtidos.” Fica fácil de perceber o alargamento de visão característico da liderança holística. Quando se amplia a conexão consigo e com o outro, a totalidade – característica primordial do holos – começa a se manifestar. A equipe passa a ser vista como um conjunto equânime onde todos tem seu valor e são interdependentes. Na visão holística, não existe uma área, parte ou grupo mais relevante, o que importa é o conjunto harmônico e o despertar do protagonismo de cada um dos envolvidos. Podemos comparar o líder holístico com um maestro que enxerga o todo e afina cada um de “seus instrumentos” para que toquem harmonicamente a melodia.  

Questionei Darlene Dutra sobre quais são as características que estão presentes nos agentes dessa nova liderança. Achei mais prático distribuir as respostas em tópicos:

  • Uma das características mais relevantes é ser seu próprio exemplo. São primeiramente líderes de si mesmos. 
  • Não basta parecer, é preciso SER. 
  • coerência entre o que se é e o que se pratica torna-se base fundamental. 
  • Possuem uma maior consciência de suas próprias emoções e clareza sobre seus objetivos. 
  • Atuam especialmente em causas e missões de interesses coletivos e não de interesses particulares.   
  • Tem o poder de articular e facilitar a realização das missões e propósitos que dirigem.   
  • São donos de uma visão crítica e de um grande senso de justiça.  
  • Os líderes para o agora e para o futuro tem o importante papel de inspirar os demaisDespertam nas pessoas o que elas tem de melhorconsiderando suas necessidades e suas emoções. 

Se você já exerce um papel de liderança, está em transição para cuidar de um time, pensa em se empreender ou até mesmo liderar melhor sua vida, vale a pena refletir sobre cada um dos pontos citados pela Darlene, eles ajudam na construção de uma gestão mais atual, inovadora e sistêmica.

Em todas as organizações, desde as mais simples como o lar, o bairro, uma associação, passando pelas pequenas empresas até as grandes corporações, a estrutura baseada nos holos tem uma tendência mais assertiva para acompanhar as macromudanças já presentes em nossa sociedade e no mundo.

Laszlo comenta em seu livro: “A mudança de realidade que experimentamos hoje se refere à maneira como nos relacionamos uns com os outros, com a natureza e com o cosmos.”  Portanto, todas as nossas interações também passam por um refinamento e a liderança não podia ficar de fora. Ela também reajusta sua rota, aprimorando a maneira de se relacionar com o outro e com o meio. Percebo também um aumento considerável de líderes buscando por caminhos de autoconhecimento e práticas relacionadas ao equilíbrio e harmonização, como Yoga, Mindfulness, Meditação, etc…, dividi essa minha observação com a Darlene e perguntei se ela considerava que os líderes praticantes desses caminhos geravam algum impacto em suas atividades profissionais.
Ela comenta que hoje existem inúmeras ferramentas, tecnologias e técnicas disponíveis para aqueles que desejam aprimorar-se. “O mergulho no “eu interior” pode sim fazer uma grande diferença, tanto ampliando a consciência sobre responsabilidades e oportunidades, como ajudando no desenvolvimento de novas capacidades. O autoconhecimento é uma alavanca sensacional, podendo conectar líderes à grandes objetivos de transformação”. E faz uma ressalva: “O simples fato de conhecer técnicas, não pressupõe seu alcance. É necessário um engajamento muito próprio e profundo afim de colocá-las em prática.” 

Lembro aqui de uma curiosidade super interessante que descobrimos em nosso projeto Volta ao Mundo… 

Quando passamos pelo sítio arqueológico de Tikal (Guatemala), descobrimos ao escalar a maior das pirâmides do complexo, que no topo da construção se encontrava uma plataforma quadrada de pedra coberta, com uma enorme “janela panorâmica” na frente. Perguntamos sobre a função daquela plataforma e nos contaram que era um local próprio para que o líder do clã Maia pudesse olhar a cidade como um todo (holos) e meditar sobre as decisões importantes a serem tomadas.

E as descobertas seguiram adiante. Os descendentes dos governantes Maias ao nascer passavam por um processo de alargamento do crânio. Muitos citam que esse procedimento na região superior da cabeça e da testa tinha como finalidade aproximá-los ao formato da espiga de milho – alimento considerado sagrado pelos povos indígenas da América Central. Mas outra corrente conta que tal alargamento tinha como finalidade a abertura do terceiro olho, e assim, o despertar da intuição, da ampla visão, da consciência, enfim, do olhar holístico.  

Acho que as descobertas na Guatemala são apenas um exemplo sobre esse anseio por uma visão mais consciente que o homem já buscou inúmeras vezes ao longo da História. E como conclu Laszlo no final de seu livro:

“A conexão entre uma mudança na consciência e uma mudança na civilização foi imaginada por diversas culturas nativas, incluindo a cultura dos Maias, Cherokees, Hopis, Incas, Mapuches, etc… É provável que a conquista da consciência transpessoal promova o progresso rumo a uma civilização baseada na empatia, na confiança, na solidariedade, uma civilização de Holos.”

Que assim seja!  

Via Exame 

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O NOVO MUNDO JÁ É FATO! COMO SE CONECTAR COM ELE?

Por Danilo España, do time Humans Can Fly e colunista da Escola São Paulo. 

Muito se fala sobre um Novo Mundo que está emergindo. Mas afinal, que mundo é esse? Que diferenças ele tem para o mundo atual e como encaramos essa transição? 

Nova Era, Despertar da Consciência, Mundo em Transição, Amanhecer da Galáxia, Nova Ordem Mundial, etc… chame como quiser. Diferentes religiões e culturas ancestrais predisseram que mudanças radicais aconteceriam do período que vivemos em diante. Eles estavam certos? Acredito que sim! 

Participamos de um momento incrível da história da humanidade, onde nunca houveram tantas possibilidades de se experimentar uma nova maneira de pensar, sentir e viver. Cada vez mais pessoas estão buscando por um propósito de vida, querendo trabalhar com algo que faça sentido e lhes dê satisfação verdadeira, querendo sentir que estão colaborando com o mundo em que vivem, buscando mais práticas físicas, mentais e espirituais para alcançar um maior equilíbrio na vida. O acesso à informação e capacidade de organização se multiplicou exponencialmente com a conectividade, a utilização otimizada de espaços e serviços se popularizou através de aplicativos, a espiritualidade passou a ter importância fundamental para a qualidade de vida das pessoas, a tecnologia nos poupou tempo em atividades burocráticas e o compartilhar se tornou uma das palavras mais pulsantes da atualidade. 

Essas características ancoram uma enorme potencialidade, mas para atingir um pleno potencial é preciso que sejam nutridas por certos princípios. Felizmente há indicadores que apontam para uma direção positiva. Termos como: empatia, gratidão, diversidade, interdisciplinaridade, ética, horizontalidade, visão sistêmica, espiritualidade, liderança holística, unidade, sustentabilidade em latu sensu, entre outros, são ouvidos com mais frequência nos últimos tempos.  O que relatei até agora são alguns sinais emergentes do chamado Novo Mundo, que funcionam como uma espécie de norte se desejarmos seguir um caminho evolutivo. Em contrapartida, percebemos que muitas das nossas atitudes como humanidade até hoje se mostraram bastante inconsequentes. Está evidente que certos sistemas e comportamentos precisam ser repensados, simplesmente porque estão nos levando a lugares que não desejamos estar. Se insistirmos no mesmo raciocínio é fato: se apagará a luz no fim do túnel.  Sem querer tirar o mérito preditivo das religiões e culturas ancestrais, acredito que  nós enquanto seres humanos, demos substrato suficiente para que notassem que nosso modus operandi já aponta que estamos indo pelo caminho errado há muito tempo. Por isso não precisamos devanear na ideia de que o novo mundo é algo transcendental, que surgiu do nada. Essa nova maneira de agir, sentir e pensar é a mais legítima tentativa de mudar pra melhor o rumo do nosso planeta e da nossa condição enquanto espécie. 

O curioso é que os valores e princípios por trás das características do Novo Mundo são “eternos”, ou seja, sempre existiram e sempre existirão, o que precisamos é ressignificá-los. E foi quando mais nos aproximamos deles, que a humanidade deu seus maiores e mais consistentes passos, se desenvolveu e prosperou. A questão é que nos distanciamos disso de alguma forma, ficamos ludibriados pelas novidades, ignorando o que nos trouxe até aqui, nos deslumbrando pela ganância, individualismo, poder e acabamos gerando uma desconexão com o outro e com nossa própria essência. Perdemos o real senso de comunidade e experimentamos a perda da nossa humanidade… 

O Novo Mundo está aí, compartilhando seus sinais a quem quiser observar. Está dada a grande oportunidade de resgatarmos as caraterísticas primordiais que nos tornam humanos. Não são devices ou a tecnologia os responsáveis por essa transição, eles podem ser meios e catalizar processos, mas a verdadeira transição só será realizada por aqueles que se atentarem a esses princípios, se dedicarem a entendê-los profundamente e os praticarem em suas vidas, pessoal e profissionalmente. 

Via Exame

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O QUE TE FAZ FELIZ?

“Felicidade é a certeza de que a nossa vida não está se passando inutilmente”, disse o escritor Érico Veríssimo. Já o compositor popular Odair José decretou na canção A Noite Mais Linda do Mundo: “felicidade não existe. O que existe na vida são momentos felizes.” Independentemente da linha de pensamento, é fato que a busca pela felicidade sempre foi uma constante na história da humanidade. Dentro do mundo capitalista, essa busca foi automaticamente associada com a aquisição de bens materiais (roupas, aparelhos eletrônicos, carros, imóveis), intervenções estéticas e, claro, a procura constante por mais e mais dinheiro. Não é preciso dizer que com o tempo o modelo se mostrou equivocado para este fim.  

Em 2008, o Butão, um país de 750 mil habitantes, localizado entre a China e a Índia, tornou-se assunto em todo o mundo ao divulgar a implementação de uma nova medida que se propunha a aferir a felicidade de seus habitantes. Batizada de Felicidade Interna Bruta (FIB) ou GNH (Gross National Happiness), a ideia surgiu após uma declaração do rei Jigme Singye Wangchuck, na década de 1970. Questionado por um jornalista a respeito do baixo desenvolvimento do seu país e a total dependência econômica da Índia, o monarca respondeu que o progresso do Butão não deveria ser medido em consumo e riquezas, ou pelo Produto Interno Bruto (PIB), mas pela felicidade da sua população.  Apesar de ser considerado um país “não desenvolvido” pela Organização das Nações Unidas (ONU) (entre as razões para esta classificação estão o fato de metade da sua população adulta ser analfabeta e o salário mínimo girar em torno de US$ 100), o Butão figura entre as dez nações mais felizes do mundo, com baixos índices de violência e fome zero. “A filosofia da FIB é a convicção de que o objetivo da vida não pode ser limitado a produção e consumo seguidos de mais produção e mais consumo, de que as necessidades humanas são mais do que materiais”, explica Thakur S. Powdyel, diretor do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento Educacional da Universidade Real do Butão, em entrevista à revista Superinteressante.  

A medida é baseada em quatro pilares: 1) desenvolvimento socioeconômico sustentável e equitativo, 2) conservação ambiental, 3) preservação e promoção do patrimônio cultural e 4) boa governança. Além disso, conta com nove domínios e diversos indicadores que avaliam questões como quantas vezes na semana a pessoa teve sentimentos positivos, como compaixão e perdão, ou negativos como inveja e raiva. Apesar de ter sido implementado oficialmente no país apenas em 2008, o FIB norteia todas as políticas públicas do país há quatro décadas e foi se aprimorando ao longo dos anos.  

Para Kalinka Susin, brasileira que atua no país como professora no Royal Thimphu College, a felicidade da população do Butão tem mais relação com a cultura do país do que com as ações propostas pelo FIB. “São os valores budistas de colaboração, de convivência em comunidade. O coletivo vale mais do que o individual. O butanês tem uma relação com a família estendida. A família butanesa não é nuclear, nunca foi, não é pai, mãe e filhos. Os filhos são criados por membros próximos que podem criá-los. Os homens migravam para fazer a colheita: a mulher é a terra e o homem era mais migrante. Os filhos eram criados pelas mulheres da comunidade. O butanês tem uma noção de irmandade que vem do budismo, ele valoriza muito a família e a ecologia à qual ele pertence”, explica, em entrevista ao portal G1.  Até 2005, o ensino sobre o FIB era realizado apenas nos templos budistas e nos centros comunitários. A partir daquele ano, o governo criou o projeto 2020 do FIB que tem como meta fazer com que toda a sociedade butanesa internalize os conceitos da Felicidade Interna Bruta. Isso porque, em 2015, relatórios oficiais registraram um aumento de pessoas infelizes no país, em comparação com os dados de 2010. O resultado tem ligação com o aumento da migração do campo para cidade e os impactos da globalização. “A pressão materialista mundial é tamanha que, se não educarmos nossos cidadãos desde a infância sobre o assunto, não conseguiremos perpetuar nosso maior bem social que é a felicidade”, reflete o monge Khenpo Phuntsok Tashi, diretor do Museu Nacional do Butão, em reportagem do Projeto Draft.  

A FELICIDADE ESTÁ NO EQUILÍBRIO 
Recentemente, a ONU passou a adotar o FIB como um de seus indicadores para medir o desenvolvimento de uma nação. “Ela considera o bem-estar psicológico, que inclui questões como autoestima e estresse; políticas de saúde e hábitos que prejudicam ou melhoram a saúde; o uso do tempo, incluindo tempo para lazer e para a família; a vitalidade comunitária, ou seja, o nível de interação com a sociedade em geral; a educação, a cultura e as oportunidades de desenvolver atividades artísticas; o meio ambiente, ou seja, a percepção da população em relação à qualidade da água e do ar, bem como o acesso a áreas verdes; a governança; a representatividade social em órgãos públicos; e, por último, o padrão de vida, a renda familiar e a qualidade de moradia”, explica Emanuele Seicenti de Brito, professora Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-RP) da USP, em entrevista à Rádio USP.
As ideias por trás do FIP estão reverberando no ocidente de diversas maneiras. No início deste ano, economistas apresentaram durante o Fórum Econômico Mundial, realizado em Davos, uma alternativa ao PIB. Batizado de Índice de Desenvolvimento Inclusivo (IDI), o novo indicador econômico leva em consideração 11 aspectos econômicos agrupados em três pilares: crescimento, desenvolvimento e inclusão. Além disso, muitas empresas passaram a utilizar o FIP (com adaptações) como uma possibilidade de criar ambientes mais humanizados e felizes para os seus colaboradores priorizando, por exemplo, o equilíbrio entre vida profissional e pessoal. “No FIB, o emprego é visto como uma entre muitas atividades produtivas, incluindo ser pai e mãe.”, explica o médico Michael Pennock, consultor da ONU para internacionalização do indicador, em entrevista à revista Época.  

Karma Dasho Ura, coordenador das pesquisas do FIB no Butão, destaca que outra questão revista a partir do indicador é a jornada de trabalho. “Seis horas de trabalho energético são suficientes. O resto do dia deveria ser liberado para lazer cultural, socialização, atividade física”, afirma, também em entrevista à Época. “Gente infeliz não projeta nada novo”, acrescenta. “É interessante as empresas pensarem da forma reversa: não produzir mais para ser feliz, mas sim ser feliz para produzir mais. Colocar a felicidade em primeiro lugar”, complementa a professora da USP Emanuele Seicenti de Brito.

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NADA SE PERDE, TUDO SE RENOVA

O impacto que o consumo desenfreado provoca no mundo é uma questão discutida por ambientalistas e economistas há tempos. Desde a década de 1980, a lógica “extrair-produzir-descartar” da economia linear (o modelo econômico até hoje em vigor) tem sido questionada e suscitado debates sobre a necessidade da criação de novos modelos que sejam funcionais, demandem menos recursos naturais e gerem menos resíduos prejudiciais ao meio ambiente.  

A economia circular é uma dessas propostas. Inspirada na inteligência da natureza, em que nada se perde, mas tudo se renova, ela é voltada para os serviços com foco no desempenho e no impacto dos produtos, ao contrário da economia linear, que tem como foco a produção e a venda. “O conceito de economia circular propõe que os recursos que extraímos e produzimos sejam mantidos em circulação por meio de cadeias produtivas integradas. Assim, o destino final de um material deixa de ser uma questão de gerenciamento de resíduos, passando a fazer parte do processo de design de novos produtos”, explica o economista holandês Douwe Jan Joustra, especialista no assunto, em entrevista ao Instituto C&A

Uma animação da Fundação Ellen MacArthur, do Reino Unido, explica de uma maneira bem interessante e didática os princípios básicos da iniciativa. Joustra diz que o grande desafio de hoje é fazer com que as empresas sejam responsáveis por seus materiais e encarem os produtos, incluindo os resíduos, como seus ativos.  “O foco das empresas não deveria estar mais nos produtos apenas, mas neles e nos serviços, porque é isso o que o cliente quer. Essa é a mudança econômica real que queremos com a economia circular”, afirma em entrevista ao jornal O Globo Autor do livro Cradle to Cradle: criar e reciclar ilimitadamente, uma das referências bibliográficas no mundo sobre economia circular, Michael Braungart defende que mais que reduzir o consumo dos recursos naturais, precisamos encontrar soluções técnicas que produzam objetos que no processo de degradação possam ser reabsorvidos pela biosfera na forma de nutrientes ou reincorporados ao ciclo produtivo. “Temos de encarar os humanos como um recurso capaz de trazer benefícios para o planeta, e não como um fardo cujo impacto deve ser minimizado”, explica em entrevista à revista Época 

UMA IDEIA EM CIRCULAÇÃO 
Nos últimos anos, diversas empresas mundo afora passaram a seguir a cartilha da economia circular. Muitas por compreenderem que a economia linear não é sustentável (do ponto de vista ambiental e financeiro), mas a maioria por enxergar a lucratividade que a proposta pode trazer. De acordo com levantamento da Fundação Ellen MacArthur, a economia circular pode garantir às empresas na Europa um incremento de € 900 bilhões no faturamento até 2030. Isso tudo levando em consideração os benefícios proporcionados pelo modelo econômico: incentivo ao desenvolvimento de novas tecnologias; redução do uso de recursos naturais, economia financeira e ganho de competitividade. 

Na Dinamarca, por exemplo, o parque industrial da cidade de Kalundborg já opera no sistema de economia circular desde o início da década de 1980. Os resíduos gerados pelas atividades de uma empresa se tornam matéria-prima para outra: a água doce, usada pela refinaria de petróleo para resfriar máquinas, é vendida para a termelétrica que, por sua vez, compra os gases liberados pela refinaria, que são reaproveitados para geração de calor.  Aqui no Brasil também temos iniciativas interessantes como a da Cooperárvore, cooperativa de moda sustentável com sede Betim, Minas Gerais, que transforma sobras de cintos de segurança e aparas de tecido automotivo em acessórios, como bolsas, mochilas, chaveiros e outros produtos. Com mais de dez anos de atuação, a cooperativa já produziu mais de 230 mil peças e reutilizou 25 toneladas de itens doados por empresas automotivas que antes seriam descartados no meio ambiente.  

Há também a Votorantim, que desenvolveu uma tecnologia que substitui o coque de petróleo, usado na produção do cimento, por resíduos (pneus velhos, papel, papelão, óleos, produtos químicos, resíduos industriais e urbanos). A iniciativa é duplamente rentável para a empresa, uma vez que ela ganha dinheiro para receber lixo gerado por outras indústrias e economiza por não precisar comprar mais petróleo. “É uma unidade de negócios que ao mesmo tempo presta um serviço e produz um impacto positivo na produção do cimento, reduzindo a emissão de gases de efeito estufa”, explica André Leitão, diretor de Gestão de Resíduos na Votorantim, em entrevista à revista Época 

“Uma economia circular não se trata de ter um produto mais verde, uma empresa mais sustentável ou uma prática melhor, muito menos de ser mais sustentável do que era. Significa fazer parte de um sistema que funciona melhor e que, ao longo prazo, revela e exclui os fatores negativos desde o princípio da cadeia de valor. Na vida e no planeta, as coisas se regeneram e se restauram o tempo todo. A ideia é incluir esse princípio na economia”, analisa Luísa Santiago, representante da Fundação Ellen MacArthur no Brasil, em entrevista ao Instituto C&A 

Uma maneira mais inteligente e sustentável de viver e se relacionar com o mundo.

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MULHERES NO COMANDO

Em 2014, a executiva Paula Paschoal se descobriu grávida de repente. Hoje diretora-geral do PayPal no Brasil, na época ela atuava como diretora de Vendas e Desenvolvimento de Negócios (um cargo estratégico) e, como muitas mulheres, teve receio de que a companhia não reagisse bem ao anúncio da gravidez e que isso a prejudicasse na carreira. O chamado risco associado ao gênero. “Fiquei tensa, esperei um, dois meses. Quando cheguei no quarto mês (da gravidez), não dava mais. Eu precisava contar para meu chefe. E a resposta dele foi muito positiva. Ele disse que enxergava que eu estava indo fazer um MBA de graça, em 4 meses”, conta em entrevista ao portal IT Forum. “Voltei da licença e fui promovida. Tive certeza que estava numa empresa na qual a valorização da mulher e a importância de equilibrar vida pessoal e profissional eram levadas a sério”, acrescenta. 

Paula representa uma mudança (ainda tímida) no mercado de trabalho para as mulheres. Especialmente no segmento corporativo, elas estão sendo (finalmente) reconhecidas pelo seu trabalho e tratadas da mesma maneira que os homensA mudança é resultado direto de pressões realizadas pelas próprias profissionais e de estudos que mostram que a diversidade é algo bom e lucrativo para as companhias. Um estudo da consultoria McKinsey, divulgado neste ano, por exemplo, comprovou que ter mulheres em cargos de liderança aumenta em 21% a chance de uma empresa ter desempenho financeiro acima da média. Batizado de Delivering Through Diversity, o levantamento avaliou mais de mil empresas em 12 países. 

Foto: Paula Paschoal – Divulgação

Em contrapartida, as companhias com pouca diversidade no organograma executivo avaliadas apresentam probabilidade quase 30% menos de alcançar lucratividade acima da média. “Elas não apenas estavam fora da liderança como também se mostraram muito atrás”, analisa o comunicado oficial da pesquisa, conforme informa reportagem do Infomoney.

Apesar do avanço, o mercado de trabalho em geral ainda é bastante difícil para as mulheresNo estudo da McKinsey, até as empresas que se mostraram mais abertas à questão da diversidade no seu ambiente de trabalho possuem apenas 10% de mulheres ocupando cargos executivos. As companhias que não se pautam pela questão da diversidade têm apenas 1%. Um estudo da Organização Internacional do Trabalho (OIT), divulgado neste ano, mostrou que a participação das mulheresno mercado de trabalho no mundo ainda é menor que a dos homens. “Apesar dos avanços conquistados e dos compromissos assumidos para continuar progredindo, as perspectivas das mulheres no mundo do trabalho ainda estão longe de ser iguais às dos homens”, aponta a Diretora-Geral Adjunta de Políticas da OIT, Deborah Greenfield, em entrevista ao G1.A desigualdade salarial não prejudica apenas o desempenho das empresas, mas do mundo como um todo. Pesquisa do McKinsey Global Institute (MGI), realizada em 95 países, identificou que a economia global ganharia US$ 28 trilhões até 2025 se houvesse igualdade de gênero em todos os países. Só a América Latina teria um aumento de 10% no PIB. Segundo estimativas do Fórum Econômico Mundial, a igualdade de gêneros só será possível em 2095. Temos um longo caminho pela frente, mas iniciativas como a como a do PayPal, de respeito à diversidade e à mulher, nos dão esperanças que estamos avançando no rumo certo.  

O estudo International Business Report (IBR) – Women in Business, realizado pela Grant Thornton em 35 países, mostrou que 29% das empresas brasileiras atualmente têm mulheres em cargos de liderança. Além disso, revelou que 39% das companhias não possuem mulheres liderando equipes – em 2017, o índice era de 53%. “Os dados deste ano comprovam que as companhias estão desenvolvendo a mentalidade de querer que mais mulheres liderem. Para que os indicadores cresçam ainda mais, as companhias precisam recrutar e treinar os talentos que provavelmente já estão presentes em suas próprias organizações”, explica Madeleine Blankenstein, sócia da Grant Thornton. Vamos em frente.

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POR MAIS LÍDERES E MENOS CHEFES

Por Thiago Franzão, time da Humans Can Fly e colunista da Escola São Paulo

O caminho natural do mundo é a evolução, é o caminho da própria natureza, é a nossa natureza. Apesar de às vezes parecer que estamos em um processo retrógrado, quando olhamos ao nosso redor, ao compararmos a nossa realidade atual com épocas e eras anteriores à nossa, a evolução fica evidente, mesmo sabendo que claramente ainda temos muito a evoluir.

Esta evolução permeia tudo, pois ela é relativa ao ser humano, e a hora que o ser humano evolui ele aplica esta visão de mundo transformada em todas as suas atividades, e a liderança não está de fora.

Acredito que a grande mudança que está acontecendo nos modelos de liderança mais contemporâneos é que o foco passa a ser o ser humano, a pessoa, o indivíduo, e não somente os resultados.

É claro que ainda não vivemos em um mundo corporativo onde existam apenas líderes, temos alguns vários chefes, mas na minha opinião os “chefes” estão com um selo de validade estampado na testa. Não há mais lugar para chefes nas empresas que querem ser bem sucedidas, apenas para líderes. Chefes governam pelo medo, líderes pela inspiração e exemplo, chefes tratam seus colaboradores da forma como lhes é mais conveniente, líderes tratam seus colaboradores da forma como gostariam de ser tratados.

Veja, não estou dizendo que estamos entrando em um mundo onde vamos começar a abraçar árvores no meio de uma reunião, certamente o mundo corporativo continuará tendo uma pressão violenta por resultados como sempre teve, isso é inerente a qualquer negócio, mas creio que pessoas sendo tratadas como pessoas proporcionam resultados infinitamente melhores do que pessoas sendo tratadas como números.

O líder que eu mais admiro é o fundador da Virgin, Sir Richard Branson e o modelo de gestão que ele implementou em suas empresas é absolutamente incrível, voltado para resultado e também para pessoas. Ao ler qualquer um de seus livros ou assistir suas palestras é possível notar que o que ele transferiu para o seu modelo de gestão é o que ele genuinamente sente em relação a como as pessoas devem ser lideradas e tratadas. Uma de suas frases emblemáticas (e são várias) é  “Clientes não vem em primeiro lugar. Seus colaboradores vem em primeiro lugar, se você cuidar de seus colaboradores, eles cuidarão dos seus clientes” – eu não poderia concordar mais com esta frase. Um outro pensamento de Sir Richard é, “Seja sempre cordial e respeitoso, faça o que é correto, mantenha seus valores, seja justo em todas as situações”,sem dar margem à dúvida, Richard Bransoné de longe o líder que mais admiro e o que mais me inspira, ainda não tive oportunidade de ter contato com líderes que apresentam tanta coerência em seu discurso e suas ações.

Ter coerência é importante, hoje é legal falar que o foco de uma ou outra empresa são as pessoas, mas são mesmo? Quantas empresas têm este discurso? E quantas agem de forma coerente alinhando o discurso às suas ações? Sinto dizer… são poucas.

Para mim o papel do líder é ter em seu time, pelo menos na maior parte dele, pessoas que estão alinhadas de alguma forma com seus valores. Não quero dizer que são pessoas iguais a ele, mas sim pessoas que carregam o mesmo sentido de ética, moral, conduta e honestidade.

Para mim liderar é um treino, uma escola, sempre se aprende algo novo. A forma que sempre tentei liderar se baseia em conceitos muito simples, e eu intuitivamente já os aplicava mesmo antes de ter contato com os conceitos de Richard Branson.

#1 Queira fazer sempre o seu melhor, inspire o seu time a fazer o mesmo.

#2 Busque ser melhor que você mesmo a cada dia, não melhor que o seu concorrente ou do que a pessoa ao seu lado, focar neles vai torná-lo igual a eles e não melhor.

#3 Lidere pelo exemplo, o discurso sem estar alinhado com ações não significa nada.

#4 Busque entregar o resultado acima de tudo, com exceção de 2 coisas. Atingir resultados não pode estar acima das pessoas e nem macular os seus valores morais e éticos.

#5 Aja com seus colaboradores da mesma forma que você gostaria que seu líder agisse com você.

#6 Entenda que as pessoas são pessoas, e que os seus problemas pessoais afetam o seu desempenho, precisamos entender e gerenciar isso.

#7 Um líder muitas vezes extrapola a esfera profissional, por várias vezes já me escutei conversando com meus colaboradores sobre problemas pessoais. Na minha visão, o líder contemporâneo acaba por atuar involuntariamente nestas esferas também.

#8 Por vários motivos o mundo corporativo exige que as vezes você tome decisões que não concorda, mas nunca compactue com decisões que abalem os seus valores. Os seus valores são os bens mais preciosos que você tem, eles são a sua palavra e a sua assinatura no mundo.

#9 Pessoas vem de culturas, criações, histórias e relações muito diferentes uma das outras, cabe ao líder entender e orquestrar este conjunto para extrair o melhor de sua equipe. O líder é um maestro, que busca uma sintonia entre vários instrumentos diferentes para chegar na melhor melodia.

#10 Tenha paciência para ensinar quem com você tem a aprender, e humildade para aprender com quem tem algo a te ensinar.

#11 Dê feedbacks constantes, feedbacks positivos podem ser dados em grupo, já os negativos, sempre individualmente.

#12 Reconheça o seu time, assuma a responsabilidade pelos problemas, não “venda” a sua equipe, um líder vai na frente assumindo os riscos e nunca escondido atrás buscando se proteger dos perigos.

Essa é a maneira como tento liderar o meu time no dia a dia, e sim é claro que cometo erros e aprendo com eles, o ponto não está exatamente nos erros que cometemos, mas como os contornamos e o que buscamos como meta para evoluir.

Vejo o resultado deste modelo de liderança quando entrevisto algumas pessoas para fazer parte do meu time e elas dizem que querem essa ou aquela posição por conta de acreditar no modelo de liderança e visão da área, vejo o resultado disso quando pessoas preferem ficar na equipe ao receberem propostas financeiramente mais atrativas, vejo o resultado disso quando mesmo atolados de trabalho (e isso é comum em uma agência de publicidade, principalmente nos dias atuais) as pessoas estão dando risada, vejo o resultado disso quando enxergo nas diferenças da minha equipe uma unidade.

Há algum tempo terminei de ler um livro que me inspirou bastante, chamado “Tao te cing”- este livro foi escrito há aproximadamente 2.600 anos por um filósofo chinês chamado Lao-Tsé (que foi contemporâneo de Confucius), e ele traz um conceito muito interessante sobre como governar/liderar:

 

Governar servindo

Rios e mares demandam os vales, porque procuram os lugares baixos.

O soberano sópode governar quando o seu governo brota do interior.

Por isso o verdadeiro sábio, quando quer governar, modera as suas palavras e renuncia ao próprio ego. 

Assim ele é um verdadeiro soberano, e o seu povo não se sente humilhado.

Governa, mas ninguém se sente governado. 

Todos lhe obedecem de boa mente, e se sentem amparados e livres. 

Nada dele reclamam. Nada desejam. 

Lao-Tsé

Em resumo, liderar é simples e ao mesmo tempo complexo, simples porque se resume em fazer o melhor, fazer o que é correto, dar o exemplo, e tratar as pessoas como você gostaria de ser tratado. Complexo, pois os problemas e a pressão do dia a dia tentam nos fazer esquecer destes nobres princípios morais, ter consciência disso faz com que busquemos cada vez mais lapidar o nosso modo de liderança, alinhando-o aos nossos princípios. O mercado precisa de mais líderes e menos chefes, e automaticamente essa substituição passa a acontecer, pois é consequência da evolução natural do ser humano, desdobrada no ambiente corporativo.

Escolhi para a imagem deste post uma das cenas do antigo filme do “Rei Arthur”. Apesar de eu ter naturalmente um interesse especial pela Idade Média e pelos templários, digo que independente disto o estereótipo do verdadeiro líder para mim é o “Rei Arthur”. Embora seja um personagem mítico e lendário, as histórias arturianas revelam as atitudes de um verdadeiro líder.

Seja mais líder e menos chefe!

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ARTE E TECNOLOGIA A FAVOR DA SUSTENTABILIDADE 

Super-heróis invisíveis. É esta a definição utilizada pelo grafiteiro paulistano Thiago Mundano para se referir aos catadores de materiais recicláveis. Ele é o idealizador de duas iniciativas que estão ajudando estes profissionais a terem o merecido reconhecimento em São Paulo e em outras cidades do país: o aplicativo Cataki e o projeto Pimp My Carroça 

O primeiro conquistou no início deste ano em Paris o prêmio de inovação do Netexplo, entidade que estuda o impacto social e econômico de tecnologias digitais e premia, em parceria com a Unesco, as iniciativas mais inovadoras. Descrito como um “Tinder da reciclagem” e lançado em julho de 2017, o aplicativo conecta catadores independentes de todo o Brasil a empresas ou cidadãos que queiram fazer o descarte correto de materiais recicláveis. “No mundo todo, as empresas estão gastando bilhões falando em sustentabilidade. Mas essas são as pessoas que estão agindo na prática. Ao conectá-las, podemos aumentar sua renda e ajudá-los em sua missão”, afirma Mundano.  Cada profissional cadastrado no app conta com um perfil contendo um breve histórico, foto, apelido, telefone, áreas da cidade nas quais atua e os tipos de resíduos que coleta. Por meio do aplicativo, eles conseguem fazer a negociação pelo serviço, levando em consideração a quantidade de material coletado e a distância percorrida. “Nosso foco é que os catadores sejam reconhecidos como prestadores de um serviço público, e que o aplicativo ajude a gerar mais renda para eles”, diz Carol Pires, coordenadora do Pimp My Carroça, em entrevista à BBC Brasil.  

Atualmente, o app conta com mais de 500 catadores cadastrados em quase cem municípios brasileiros. O cadastro pode ser feito pelos próprios profissionais ou por pessoas que queiram ajudá-los (a única coisa que eles precisam ter é um número de telefone para contato). Com o cadastro no aplicativo, Rosineide Moreira Dias das Neves, mais conhecida como dona Rosa, conquistou novos clientes fixos em Recife, cidade onde mora e na qual trabalha como catadora de materiais recicláveis há mais de 20 anos. “O aplicativo é muito bom porque está dando valor à gente. Está trazendo reconhecimento. Através dele, o pessoal está notando que a gente existe”, declarou, também em entrevista à BBC Brasil.  

 MAIS COR, MENOS INVISIBILIDADE, MAIS RESPEITO 
Pimp My Carroça foi o primeiro trabalho realizado por Mundano com os catadores de materiais recicláveis. Inspirado no programa de TV Pimp My Ride, que transforma carros velhos e máquinas turbinadas, o artista começou a grafitar as carroças dos catadores de São Paulo com frases como “Um catador faz mais que um Ministro do Meio Ambiente”, “Meu carro não polui!” e “Meu trabalho é honesto, e o seu?”. “A gente acredita que o catador de material reciclável faz um papel fundamental na gestão de resíduos no Brasil e no mundo. Por notarmos que eles passavam de forma invisível pela sociedade, a gente identificou que a carroça podia cumprir um papel fundamental de melhorar a autoestima e fazer com que as pessoas passassem a respeitá-los”, diz Carolina Pires, produtora cultural do Pimp My Carroça, em entrevista ao Catraca Livre 

O projeto atende os catadores em um escritório no bairro de Pinheiros e, além da pintura das carroças, também oferece kits de segurança para os profissionais (com luvas, fitas refletivas, cordas, bonés, coletes, calças e capas de chuvas) e realiza reparos na funilaria e na borracharia dos veículos, como instalação de freios e retrovisores. Desde 2012, também realiza edições itinerantes do Pimp My Carroça, evento que, além da pintura e dos reparos nas carroças, oferece exames médicos (testes de glicemia e aferição de pressão arterial), ações de beleza e atividades culturais para os trabalhadores.
A iniciativa, que conta com uma rede de 1.174 artistas e grafiteiros parceiro e 1.854 voluntários, já ajudou 1.299 catadores em 48 cidades de 13 países. “Para os catadores é super importante. Todo catador quer ter o carrinho bonito, na verdade. A gente tem o maior orgulho da carroça da gente, porque é o nosso ganha pão. O meu carrinho não tinha nem tinta, eu comprei ele, ele era sem cor, todo horrível mesmo. E eu nem ia ter condição de arrumar ele igual eles. O artista que veio deixou meu carrinho lindo então onde eu passo as pessoas já pensam diferente. E até respeitam mais. Param, perguntam quem pintou, dão parabéns. Muito bom!”, conta Cacilda Aparecida de Souza, em entrevista ao portal Vermelho. 

O sucesso do projeto incentivou a criação de outras iniciativas, como o Pimp My Cooperativa, voltada para as cooperativas de material reciclável; e o Pimp nosso Ecoponto, que revitaliza os espaços de coleta e também oferece atendimento aos catadores. Ações que ajudam a valorizar cada vez o trabalho dos nossos super-heróis invisíveis.

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EM BUSCA DA PLENITUDE DA CONSCIÊNCIA

No mundo hiperconectado e em constante transformação no qual vivemos, o estresse é umas das enfermidades mais presentes. Situações de estresse costumam liberar cortisol no organismo, hormônio que interfere diretamente no funcionamento do nosso sistema imunológico. Não à toa, a doença está associada ao desencadeamento de outras enfermidades crônicas que estão entre as que mais matam no mundo, como diabetes, obesidade e depressão.   

Além do estresse, a correria em que vivemos também nos provoca uma sensação constante de não estarmos totalmente presentes nas situações que vivenciamos. O famoso viver no modo piloto automático. “Não estamos atentos ao que fazemos em 47% do nosso tempo”, afirma Marcelo Demarzo, professor do Departamento de Medicina Preventiva da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em entrevista ao Nexo 

Demarzo é coordenador do programa Mente Aberta, criado em 2011, o primeiro núcleo no país focado no mindfulness (ou atenção plena, em livre tradução), uma prática de meditação que tem conquistado cada vez mais adeptos no Brasil e no mundo interessados em combater o estresse e em manter-se atento ao que acontece com a própria mente e com o próprio corpo no presente, no agora. Inspirado diretamente na prática do budismo, o método foi introduzido no ocidente pelo médico norte-americano Jon Kabat-Zinn na década de 1970. Desde sua criação, inúmeros estudos foram feitos para avaliar os seus benefícios à saúde humana. Segundo reportagem da revista Superinteressante, uma das pesquisas mais abrangentes sobre o assunto analisou o impacto do programa em 93 indivíduos diagnosticados com transtorno de ansiedade – problema que afeta um terço da população mundial segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Cientistas do Hospital Geral de Massachusetts, nos EUA, descobriram que a técnica diminuiu drasticamente os índices de estresse e a sensação de desespero frente a problemas. 

Um estudo feito pelo Hospital Israelita Albert Einstein, a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e o Instituto Appana Mind revelou que uma hora e 15 minutos de ioga e meditação três vezes por semana, ao longo de dois meses, cortou pela metade a concentração de cortisol de uma turma em que a ansiedade atingia índices alarmantes, os cuidadores de doentes com Alzheimer. 

Não à toa, médicos e especialistas em saúde pública defendem a aplicação do método em tratamentos – no Reino Unido, o mindfulness já é oferecido no sistema público de saúde desde 2009. Entretanto, o crescente número de adeptos à prática transformou o mindfulness em um negócio extremamente lucrativo e criou ramificações e conceitos que, segundo especialistas, podem ser prejudiciais à saúde humana.  

 O OUTRO LADO DA MOEDA
Em 2015, o mindfulness já era um mercado avaliado em US$ 1 bilhão nos EUA, de acordo com matéria da revista Fortune. Segundo reportagem do Chicago Tribune, os aplicativos de meditação Calm e Headspace (os mais famosos) estão hoje avaliados em US$ 250 milhões. Em junho deste ano, o Headspace anunciou a intenção de buscar a aprovação do Food and Drug Administration (FDA), ligado ao Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos, para criar uma versão de seus programas prescrita por médicos.  
Atualmente, a técnica tem sido vendida pelo mercado como um processo que cura diversas doenças, algo que preocupa especialistas. “Muitas pessoas acreditam que a meditação resolve tudo instantaneamente e que não importa o que há de errado com você: ao começar a meditar tudo fica bem. E isso claramente não é o caso”, explica Sara Lazar, pesquisadora e professora de psicologia da Universidade de Harvard, em entrevista ao Chicago Tribune. Pesquisas recentes mostram que a meditação pode ter um impacto negativo em alguns casos e contribuir para o desenvolvimento de psicoses em pessoas que sofreram um trauma grave ou que têm transtorno bipolar ou esquizofrenia, por exemplo.  

Há hoje versões de mindfulness para tudo, desde passear com o cachorro até fazer sexo. Um dos ramos mais lucrativos tem relação com o aumento da produtividade no trabalho. O programa Search Inside Yourself, da Google, é um deles. A iniciativa é baseada no trabalho do ex-engenheiro da empresa Chade-Meng Tan e o transformou no atual guru das empresas. Ironicamente, um recente estudo apresentou indícios de que o mindfulness pode ter um impacto reverso quando se trata de motivação. “Esta pesquisa diz que depois de uma sessão de mindfulness as pessoas se sentem muito bem com as coisas e, portanto, não estão ansiosas para sair e vender, vender, vender. As pessoas dizem: ‘Eu fiz tudo certo, me sinto bem, trabalhei bastante hoje. Minha empresa está indo bem o suficiente’”, explica Jeff Wilson, professor de estudos religiosos na Universidade de Waterloo, no Canadá, e autor de Mindful America (publicação referência no assunto), em entrevista ao Chicago Tribune 

Os benefícios do mindfulness já estão comprovados pela ciência e vão além de se tornar uma pessoa mais inteira, calma e presente. No entanto, ao adentrar este universo é importante escolher profissionais e programas qualificados para fazer o processo de maneira segura. Acima de tudo, é importante ter consciência que mais que melhorar as relações profissionais, familiares e amorosas, o mindfulness pode nos ajudar a melhorar a nossa relação com nós mesmos – a nossa melhor e mais duradoura companhia.

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TECNOLOGIA E HUMANIDADE

Por Danilo España, time da Humans Can Fly e colunista da Escola São Paulo

Através do teclado do meu computador digito esse texto e através da sua tela você o lê. Aqui criamos um elo de comunicação, neste momento somos ajudados pela tecnologia.

A tecnologia nos ajuda em diversas áreas, facilita processos, acelera as comunicações e gera resultados rápidos. Acontece que para tudo há um limite, e ainda que não façam tantos anos que a tecnologia atingiu um certo ápice, existem pessoas comprovando na pele que o excesso de tecnologia pode prejudicar a vida social e até mesmo a saúde.

Não só o fato de vermos famílias inteiras ou grupos de amigos em um restaurante, por exemplo, imersos, todos, em seus celulares e tablets ultramodernos sem conversar. Há também outras situações que nos mantém reféns da modernidade: ter que olhar o e-mail diversas vezes por dia, acompanhar as atualizações das redes sociais, responder centenas de mensagens e de depender de uma conexão de alta velocidade 24 horas por dia para satisfazer nossas curiosidades, buscar informações, cumprir tarefas, pagar contas, descobrir tendências, ideias, empresas, pessoas etc…

Mas como definir se a quantidade de contato que temos com a tecnologia chega a ser prejudicial?

David Backer, fundador da The School of Life deu uma palestra em São Paulo algumas semanas atrás sobre o tema Tecnologia e Humanidade e por sorte estivemos presentes para escutar o que ele tinha a dizer. Seu discurso foi sobre o quanto a tecnologia tem influenciado as relações pessoais, sociais e o quanto deixamos que ela invada nossa vida, acabando com a nossa privacidade, desrespeitando nosso ritmo psíquico, biológico e afetando até mesmo nossa saúde.

Máquinas, equipamentos, dispositivos são essenciais para sobreviver em um modelo de sociedade onde o virtual está cada dia mais próximo do real. Descobrir um limite de interação com as tecnologias é algo individual, cada um deve buscar essa equação para respeitar sua própria natureza.

Por mais que busquemos as tecnologias mais incríveis, ainda assim é o homem que as inventa, as cria, ou seja, todo potencial de sua criação está no homem. Esse encontro me fez pensar quão alta é a tecnologia do nosso próprio corpo. Possuímos a mais avançada tecnologia, a tecnologia natural, biológica, humana… ou seja, não podemos esquecer as funções que nosso corpo desempenha, a quantidade de informações que armazenamos, como conseguimos acessá-las a uma velocidade absurda, a capacidade de bilhões de cálculos, o potencial analítico que temos, auto-regulações corporais, sentimentos, emoções, razão, etc.

A tecnologia evidentemente evolui, mas e a humanidade? Estamos evoluindo nosso lado humano e tendo orgulho dessa evolução tanto quanto da tecnologia? Precisamos de um movimento que valorize as características naturais do homem, que respeite seus limites e que trabalhe dentro de um nível de tolerância individual, considerando que somos diferentes, que suportamos coisas absolutamente distintas. Os talentos também são individuais, devem ser exercitados, desenvolvidos e o tempo que nos prendemos à tecnologia muitas vezes consome esses importantes momentos. Outro importante momento que não estamos desfrutando e que nos é essencial é o ócio. David lembrou que perdemos o poder da lentidão, por exemplo, de cultivar o pensamento lento, e perdemos também a alegria da imperfeição, afinal estamos longe de sermos perfeitos seja no que for.

O que não nos damos conta é que podemos escolher o que pensar e como pensar, as imposições da atualidade dificultam esse processo, mas ainda depende de nós essa escolha.

Então que sejamos usuários da tecnologia e não seus escravos…

O mundo anda mais preocupado com o High Tech. Escrevemos recentemente uma matéria sobre isso. Hoje há uma necessidade de se recuperar o High Touch. High Touch para quem nunca ouviu falar, quer dizer a alta tecnologia do toque, do afeto, do carinho, ou seja, da humanidade. Ela sim nos toca verdadeiramente, não é fria como uma máquina que reage aos nossos estímulos por pura programação.

A naturalidade humana vem se perdendo por diversos motivos, pelo excesso do uso de tecnologias, pelos sistemas falidos que vivemos; sejam políticos, sociais ou econômicos. Por uma cultura popular globalizada em que existem apenas dois grupos de pessoas os “winners” e os “loosers”. Você é um vencedor na vida se tem dinheiro, sucesso e reconhecimento, caso contrário é um perdedor, depreciado pelos que possuem mais dinheiro.

Esses dias conversando com um amigo ele me disse: você já parou pra pensar no que significa estar “bem de vida”?

E aí parei para pensar que o “bem de vida” hoje significa “estar bem financeiramente”. É triste que assim seja, mas sou otimista e a favor do movimento humano. Quem sabe um dia estar bem de vida se torne uma expressão que tenha mais a ver com VIDA do que com dinheiro, a vida é mais do que isso. Então te convido a refletir sobre como anda pensando, e no que, para que nosso olhar e posicionamento sobre o mundo evolua e essa evolução seja mais importante do que a evolução tecnológica. Para que a expressão estar “bem de vida” signifique ter saúde, paz e estar de acordo com sua própria jornada.

A era do comportamento padrão se foi, entendemos bem o termo globalização e já experimentamos seus efeitos positivos e negativos. O acesso à informação nos permite decidir com mais base, nos traz reflexões diversas. A era da tecnologia está aí para nos servir e nos ajudar, o que vale é saber usá-la para continuarmos “bem de vida”.

Via Exame