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GLAUBER, O CINEASTA PENSADOR

Contestador e revolucionário, Glauber Rocha é uma das figuras mais emblemáticas do cinema nacional. Integrante do Cinema Novo, importante movimento da década de 1960 que ia de encontro às produções de Hollywood e pautava-se em temas políticos e sociais, ele buscava retratar em seus filmes o espírito de seu tempo e criar um cinema com estética genuinamente brasileira. Nascido em Vitória da Conquista, na Bahia, em 1939, foi em Salvador que Glauber, adolescente, teve seu primeiro contato com o cinema, por meio do Clube de Cinema da Bahia no qual ele assistia a filmes do neorrealismo da Itália e clássicos do cinema mundial.  

Com o lema “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça” e a proposta de fazer um cinema autoral, ele criou a chamada “estética da fome”, uma adequação da linguagem cinematográfica à escassez de recursos no Brasil. “É uma estética que rompe de forma bem nítida com a tradição do cinema clássico e sua linguagem, as regras de montagem, de composição dos planos, de encenação. Tudo isso para montar um cinema dentro de condições precárias de produção”, explica Ismail Xavier, teórico de cinema e professor emérito da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP), em entrevista ao Nexo. “Isso leva a uma diferente noção de montagem que passa a incluir a ideia de descontinuidade, uma forma mais agressiva de compor a cena, uma forma completamente distinta de dirigir os atores, dando maior espaço para o improviso, para relações tensas entre câmera e ator e construindo toda uma dramaturgia”, completa.   

Por conta das características experimentais e inovadoras, suas obras são, até hoje, lidas por algumas pessoas como difíceis e complexas. “Esse tipo de experimentação fez do cinema dele algo sofisticado e que, ao mesmo tempo, traduz nas imagens e nos sons a visceralidade, a brutalidade que caracteriza a violência colonial da qual nasceu o Brasil. Ele queria produzir a violência esteticamente, sem fazer dela um espetáculo à la Hollywood”, analisa Jair Fonseca, professor de Literatura e Cinema da Universidade Federal de Santa Catarina, em entrevista ao DW. Ao longo de sua carreira, Glauber dirigiu nove longa-metragens, alguns premiados em importantes festivais da Europa, como o de Cannes. 

Dentre suas obras mais famosas estão Terra em Transe (que retrata a instabilidade política do país na época e que completou 50 anos em 2017)Deus e o Diabo na Terra do Sol (que tem o sertão como cenário, explora a cultura do Nordeste e mistura linguagens como teatro e ópera) e O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiroprodução que tem fãs famosos, como o cineasta italo-americano Martin Scorsese (os dois diretores eram amigos). “É o filme que eu vivo revendo e continuo mostrando às pessoas, se eu acho que elas merecem (risos). Às vezes, elas não merecem, pois certas pessoas são como zumbis, não têm sentimentos ou coisa parecida. Eu não sei, acho que é bom mostrá-lo para as pessoas que possam ser ajudadas no seu trabalho. Mesmo até se elas rejeitarem o filme, pois já é algum tipo de reação. Melhor do que vem sendo apresentado ultimamente. Eu fico indo e voltando com ‘O Dragão’ e a música não sai da minha cabeça e além do mais, eu o conheço de ponta a ponta”, disse o diretor em entrevista à Folha de S.Paulo.  

Mais do que uma revolução estética e autoral, Glauber buscou retratar em seus filmes as inquietudes do Brasil (e da América Latina) de sua época e utilizar o cinema como plataforma para questionar problemas políticos e sociais e propor mudanças. “A obra do Glauber foi talvez a que estabeleceu o padrão de exigência mais alto na conjugação entre experimentação estética radical, esforço de pensar os impasses da experiência social brasileira e de intervir também no debate político do seu tempo. Nessa conjugação, nenhuma obra de cinema no Brasil foi tão longe”, analisa Mateus Araújo, professor da Universidade de São Paulo (USP), em entrevista ao Nexo.  

“Eu não faço um cinema convencional. Quer dizer, o meu tipo de filme é uma coisa que sai .… de um outro espaço, e não obedece muito as leis da dramaturgia convencional, de modo que as pessoas ficam chocadas”, declarou Glauber, certa vez. Sua produção, contudo, não ficou datada e segue hoje mais atual e oportuna do que nunca. O cineasta faleceu em 1981, aos 42 anos, no Rio de Janeiro.  

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MODA E MÚSICA TEM A VER?

Rodrigo Polack responde! 

Hoje, logo pela manhã, ao pesquisar alguns vídeos no Youtube, me deparei com um especialíssimo — e me emocionei de imediato. Tinha a mais que absurda cantora islandesa Bjork, se apresentando no desfile de Alexander McQueen. 

Vou (tentar!) descrever a cena: o vestido era um haute couture longo, com bordados e plumas, e uma ventania de dar inveja à Beyoncé, que fazia a islandesa flutuar na passarela. As modelos, passavam por Bjork, compondo um lindo ballet de preciosismo fashion. O evento era o Fashion Rocks, o ano 1997 e a música era Bachelorette. 

Esse vídeo curto, de três minutos e meio, desencadeou uma pesquisa por outros, também icônicos para a moda, que tivessem uma relação direta com a música. Ali estava o tema da minha coluna desta semana. 

Em seguida, digitei na busca “Viktor & Rolf + Tori Amos”. Recordei do memorável, delicado e estranhamente lindo desfile de fall/winter 2005 da dupla, em Paris. A cantora Tori Amos, de cabelos vermelhos frisados e robe de seda pink, tocada um piano de calda, numa passarela escura e dramática. Quem abriu o desfile foi Lily Cole, num vestido-casaco-edredom com direito a travesseiro e muito cabelo armado. A terceira foi Carol Trentini. Raquel Zimmermann e Cintia Dicker vieram pouco depois, para completar o time das brasileiras.  Eu, que estava há apenas 2 anos na carreira de stylist, fiquei impressionado com tamanha sensibilidade. A união de imagens lindas arquitetadas com perfeição, ao som de uma trilha tão única, criaram uma espécie de atmosfera noir, digna de um sonho do Batman. Quem já assistiu a um desfile, sabe o que é a sensação gostosa de bater o pezinho ao som da batida perfeita. 

Para mim, a moda foi, é, e sempre será emocionante. Abra os olhos e deixe os ouvidos atentos, pois quando menos esperar, cores, texturas, brilhos e formas vão  formando imagens como num passe de mágica. E nem precisa ser tão entendedor do assunto. Basta ser livre para voar. 

Jean Paul Gaultier criou o corset de Madonna para a Blonde Ambition Tour, de 1990. Dentre tantas, com certeza absoluta, é a peça mais lembrada de todo o acervo da Rainha do Pop. Basta olhar para uma foto, que toda a performance vem à mente. Com coreografia, rabo de cavalo, bailarinas e afins. Claro, para quem é da época, assistiu ou leu alguma matéria sobre o assunto.  

Madonna uma vez disse, “Não sigo as tendências, as faço!”. Mas não faz sozinha. É rodeada dos melhores designers de moda (stylists e profissionais da beleza também, of course!) que dão tudo para serem os escolhidos. Com a mesma máxima da loira ambiciosa, Maria Antonieta, esposa do Rei Luis XV, em pleno século XVIII, foi a primeira rainha a entender e usar a moda como instrumento de poder.   

No MTV Awards, também de 1990, Madonna com muitas joias, penteado monumental e um vestido riquíssimo  (que deixava seu peito quase todo à mostra, em um decote pra lá de profundo), deixou o mundo extasiado com sua performance ao vivo, em homenagem à abusada Maria Antonietta. Mais uma vez, a música se rende aos encantos da moda e também da história. Lady Gaga e Beyoncé em Paparazzi, David Bowie em Life On Mars, George Michael em Freedom (ao lado de uber models como Naomi Campbell, Linda Evangelista, Cindy Crawford e Christy Turlington), nos trouxeram momentos mais que memoráveis e cheios de referências fashionistas. Vou contar um segredinho… para fazer uma edição de looks no meu trabalho, coloco músicas que tenham a ver com o mood. Se o estilo é mais romântico, já boto uma música clássica bem intense ou até uma bossa nova. Se é rocker, caio de cabeça nos Rolling Stones (minha banda favorita da vida!). Se é street, vou de hip hop e por aí vai. A música me move em tudo o que faço, inclusive nesse exato momento que estou escrevendo. E sabe qual a playlist que estou ouvindo? Uma que só tem trilhas de filmes de moda. 

Agora abra uma nova janela na sua tela e assista a cada um desses momentinhos mágicos que citei acima. Tenho certeza que você vai ficar com vontade de sair por aí desfilando um lookão, ou quem sabe, até se emocionar como eu. Ou as duas coisas. 

Rodrigo Polack é stylist há 15 anos, professor da Escola São Paulo no curso Styling, apresentador do programa 5 Looks, no Discovery Home & Health, ao lado de Chris Flores e colunista semanal da Revista QUEM Inspira. Clique aqui para ler a matéria original