Postado em Deixe um comentário

BERGMAN, O CINEASTA DAS ANGÚSTIAS EXISTENCIAIS

“Eu quero que o público sinta os meus filmes. Isso é muito mais importante para mim do que compreendê-los.” Era dessa maneira que o diretor Ingmar Bergman encarava a sua produção cinematográfica, uma das mais importantes do século XX. Considerado uma das principais referências do drama existêncial no cinema mundial, o realizador sueco, que completaria 100 anos em 2018, criou filmes que discutem temas como repressão sexual, moral religiosa, relacionamentos em crise, autoritarismo nas relações familiares, solidão e o sentido da vida. Parece atual, não? 

Nascido em Uppsala, um dos principais centros religiosos da Suécia, Bergman era filho de um pastor luterano, Erik Bergman, a quem o diretor descrevia como um “monstro frio” amável na igreja, mas extremamente rígido em casa. Ele os dois irmãos cresceram em um ambiente familiar bastante rigoroso e conservador. “A maior parte de nossa educação era baseada em conceitos como pecado, confissão, castigo, perdão e misericórdia, fatores concretos nas relações entre pais e filhos e com Deus”, escreveu o cineasta na autobiografia Lanterna Mágica. Os tormentos da infância foram revisitados por Bergman no filme autobiográfico Fanny e Alexander, de 1982, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro, fotografia e direção de arte e a produção estrangeira com maior número de Oscars da história, ao lado de O Tigre o Dragão, do diretor Ang Lee. 

A lanterna mágica da autobiografia faz referência a um cinematógrafo que o irmão mais velho dele ganhou de presente de Natal e pelo qual Bergman trocou sua coleção de soldadinhos de chumbo. É também considerado por ele o momento em que teve início o seu interesse pela sétima arte – isso e as sessões de cinema em que ia com a avó (sem o pai saber) na mesma época. No quarto, sozinho, o diretor posicionava o cinematógrafo, projetava sobre a parede imagens de diversos objetos e ali criava suas primeiras narrativas. “Sempre que desejo posso trazer de volta o cheiro do metal aquecido, os odores do remédio contra traças e da poeira do guarda-roupa, sinto a manivela na minha mão, o tremor do retângulo na parede”, declarou certa vez.  

Sua estreia no cinema acontece em 1944 como roteirista do filme A Tortura do Desejo. A carreira como diretor começa em 1947 com Um Barco para a Índia. Dez anos depois, ele alcança sucesso mundial com os filmes O Sétimo Selo (épico ambientado no período da Peste Negra no qual foi criado um dos planos mais memoráveis do cinema em que um cavaleiro medieval, interpretado por Max Von Sydow, joga xadrez com a morte) e Morangos Silvestres, um drama estrelado por Victor Sjöström, considerado o pai do cinema sueco. Não à toa, o documentário Bergman – 100 Anos, da cineasta Jane Magnusson, lançado em 2018, tem como foco o ano de 1957.  

Ao longo de mais de 60 anos de carreira, Bergman criou filmes que revolucionaram a produção cinematográfica no mundo graças à sua iniciativa de subverter regras e acrescentar à linguagem do cinema novos elementos. Fora a abordagem de temáticas existenciais, tornaram-se características de seus filmes as narrativas fragmentadas; a habilidade de trabalhar com os contrastes entre luz e sombra; seu interesse por histórias protagonizadas por mulheres; e as tomadas tão próximas do rosto dos atores que fazem o público conseguir captar precisamente os medos e anseios dos protagonistas. “O close-up em um ator, quando corretamente iluminado, dirigido e atuado, continua sendo o auge da cinematografia. Aquele contato estranho e misterioso que você pode de repente experimentar com uma outra alma através do olhar de um ator. Um pensamento súbito, um sangue que escorre pelo rosto, as narinas trêmulas, a pele repentinamente brilhante ou o silêncio mudo. Esses para mim são alguns dos momentos mais fascinantes e incríveis que você irá experimentar.” 

Somam-se ainda outras obras-primas como Fonte da DonzelaSonata de OutonoPersona e Gritos e Sussurros (essas duas últimas as preferidas do diretor “Foi o mais longe a que cheguei”), o diretor foi premiado sete vezes no Festival de Cannes (incluindo a Palma das Palmas, prêmio inédito até hoje) e ganhou dois Ursos de Ouro no Festival de Berlim, um Leão de Ouro no Festival de Veneza e três vezes o Oscar de melhor filme estrangeiro. Seu trabalho influenciou diretores como Woody Allen (que homenageia Morangos Silvestres em Descontruindo Harry), Andrei Tarkovsky, Martin Scorsese, Pedro Almodóvar, François Ozon, Asghar Farhadi, Lars von Trier e Guilhermo del Toro. A Bravo! fez uma ótima seleção dos cinco filmes essenciais para entender a obra do diretor sueco. 

Bergman era integrante de uma geração de cineastas que buscava criar obras autorais (dos longas-metragens que dirigiu, apenas seis não são baseados em um roteiro que assinou), sérias e artísticas cujo valor não pudesse ser mensurado apenas pelo sucesso nas bilheterias. Além disso, seu objetivo era fazer filmes que falassem diretamente com o inconsciente coletivo do público. “Nenhuma outra forma de arte vai além da consciência ordinária como o cinema, que vai direto nas nossas emoções, fundo no crepúsculo da alma.”  

Fora o trabalho no cinema, o diretor também atuou no teatro, produzindo 126 espetáculos (costumava dizer que era um homem de teatro, sua primeira grande paixão), além de 39 peças de rádio e programas para a televisão. Em uma das cenas mais icônicas de o Sétimo Selo, a morte pergunta ao cavaleiro se ele nunca para de se questionar ao passo que ele responde “não, eu nunca paro”.  Bergman seguiu com seus questionamentos existenciais até 2003, quando se aposentou aos 85 anos. Ele morreu em 2007, aos 89 anos, sozinho em sua casa na Ilha de Faro, cenário de muitos de seus filmes. Muito mais que filmes “intelectuais”, ele deixou um legado de obras que nos ajudam a entender quem somos e qual é o real sentido da vida.  

Postado em

POR TRÁS DOS FIGURINOS

Figurinos são importantes como ferramenta em processos criativos, seja no audiovisual, seja no teatro. Além de ajudarem os atores no processo de criação dos personagens, eles também apresentam ao público informações essenciais sobre aquelas pessoas em cena. Figurinista há mais de 30 anos, Marichilene Artisevskis afirma que a construção do seu trabalho leva em consideração dados ligados às histórias dos espetáculos e elementos que não necessariamente têm relação com as obras, mas que alimentam a sua criatividade.  A gente bateu um papo com ela para entender um pouco mais sobre o processo de desenvolvimento dos figurinos e a importância das referências no trabalho de criação no teatro: 

ESCOLA SÃO PAULO: O Mal Entendido, um dos espetáculos nos quais você trabalhou, é inspirado em uma história real que aconteceu em Belgrado, na década de 1930, e a montagem, embora não especifique o local onde se passa a história, buscou trazer à tona para o palco esse ambiente. Qual o peso do figurino neste processo?  

Marichilene: O teatro não tem muito essa função de caracterizar figurinos de época, porque o cinema já faz isso lindamente. No palco a discussão é muito maior, mesmo quando se trata de obras clássicas. Você as olha sob as perspectivas do hoje. Em O Mal Entendido, os figurinos não fazem referência à época em que a história se passa, mas sim a particularidades de cada personagem. Decidimos que os três personagens principais (mãe, filha e criado) apresentariam característica de habitantes de um lugar frio que parou no tempo. O figurino em si sugere algo antigo, mas não é. É uma mistura de coisas, na verdade. Todos os personagens estão com o corpo bastante coberto, usando luvas e casacos, justamente para caracterizar pouca exposição ao sol e transmitir a ideia de isolamento e de poucas referências de mundo.

ESCOLA SÃO PAULO: Quais foram as principais referências para criação do figurino deste espetáculo?  

Marichilene: Como figurinista, as minhas referências vem de diversos lugares: moda, cinema, arte. A criação para cada personagem é muito particular. A Marta (a filha), por exemplo, a personagem principal do espetáculo, tem várias características pessoais que me ajudaram a desenhar o figurino dela, como o desejo de ver o mar (que me fez mergulhar no universo dos marinheiros), e uma inocência quase infantil. Por isso, as roupas dela têm tons de azul e ela utiliza sapatos de boneca. 
ESCOLA SÃO PAULO: Quanto tempo é preciso para definir e criar cada uma das peças apresentadas em cena?  

Marichilene: Geralmente é um processo longo que envolve a participação direta nos ensaios. A primeira coisa que eu faço é uma pesquisa de imagem para abrir o olhar e entender o universo da obra. Neste processo, eu entro em contato com as mais diversas referências possíveis. Nem todas eu uso, mas todas de alguma forma alimentam a minha criatividade. Neste espetáculo, eu fui fazendo provas nos atores durante os ensaios para entender o que funcionava em cada personagem, mudando o que não funcionava em cena. Este processo é necessário porque faz com que os atores e a direção da peça se apropriem daquele figurino a ponto dele quase não ser notado em cena de tão integrado que está ao espetáculo.

Postado em

MAGIA DA MÚSICA

Por Denise Lagrotta, do time da HumansCanFly e colunista da Escola São Paulo

“Música dá alma para o universo, asas para a mente, voo para a imaginação, e vida para tudo” – Platão

A vida é permeada pela música. Ela nos permite sonhar, vibrar, relaxar, focar, imaginar. Também nos motiva, nos diverte, nos emociona. Mas vai muito além disso.

Escritos de mais de 4000 anos na China, Índia e Egito relatam que a música era utilizada para o bem estar, elevação espiritual e fins terapêuticos. No Ocidente, a palavra música nasceu na Grécia  — onde “Mousikê” significava “A Arte das Musas” — e era considerada um fenômeno de origem divina, ligada à magia e à mitologia.

Albert Einstein tinha uma forte ligação com a música. Para ele “a música e a pesquisa em física originam-se de fontes diferentes, mas são intimamente relacionadas e ligadas por um fio comum, que é o desejo de exprimir o desconhecido”.

Para o compositor Philip Glass, música é troca, diálogo, compartilhamento.

musicoterapia trouxe benefícios à ex-ginasta Lais Souza após o grave acidente que lhe retirou  movimentos de braços e pernas. Ela chegou a perder a capacidade de respirar e revelou que os exercícios de canto a fizeram melhorar muito.

Estudos recentes apontam que a música ajuda no tratamento de Alzheimer e de outras doenças neurológicas. Pelo conteúdo emocional, a música alcança determinadas áreas cerebrais que ativam áreas da memória.

O neurologista Oliver Sacks escreveu sobre este fenômeno no livro Musicophilia: Tales of Music and Brain. Ele diz que esses pacientes perdem sua autobiografia, mas ao ouvirem a trilha sonora de uma época anterior eles podem recuperar não só a memória dos próprios sons, como também os eventos que lhe são inerentes, propiciando momentos de prazer e paz.

A Organização Music & Memory — dedicada a ajudar os idosos a se conectar à música, incluindo a coleta de iPods usados para doação – traz o registro da história comovente do paciente Henry, que ganha vida quando escuta músicas de sua juventude.

O compositor Robert Alexander transforma dados científicos de satélites espaciais em sons que agradam aos ouvidos e ajudam a fazer descobertas. Ele acredita que há alguns fenômenos que podem ser entendidos diretamente e intuitivamente pela análise visual, já outros fazem mais sentido se ouvidos.

Um experimento desenvolvido pelo brasileiro Eduardo Miranda pode transformar em realidade os sonhos de milhares de músicos profissionais e amadores. Trata-se do projeto de neurotecnologia musical que “lê pensamentos” com a ajuda de uma espécie de touca que capta ondas cerebrais e promete transformá-los em música, mudando completamente o processo tradicional de composição.

A música também tem o poder de transformação, como o exemplo inspirador da orquestra que nasceu do lixo.

Podemos encontrar inúmeras razões para traduzir o alcance da música na nossa vida. Mas a música transcende à razão.

Via IDEAPLEX

Postado em

SIMON PORTE JACQUEMUS, A MODA COMO UM FILME FRANCÊS

Simon Porte Jacquemus nasceu em Salon-de-Provence, a 50 km de Marselha, na Provence, sul da França. Aos 18 anos, se mudou para Paris com o objetivo de estudar moda e estagiar em uma grande Maison. Uma tragédia, contudo, mudou completamente os seus planos: após um mês na Cidade Luz, ele perdeu a mãe em um acidente de carro e decidiu largar tudo.


Para superar a dor, fez do seu desejo de se expressar por meio da moda um importante aliado. “Poucos dias depois do enterro, transformei minha dor em força, em vez de fraqueza, e comecei a criar. É por isso que consegui tocar as pessoas. Mesmo que as minhas primeiras coleções não tivessem uma linha precisa, havia a emoção”, explica em entrevista à revista Elle.

De volta à Paris, sem recursos ou contatos importantes, mas com uma vontade imensa de criar, fez a primeira coleção e aconteceu. Hoje, aos 27 anos, Jacquemus é um dos nomes mais importantes da moda na atualidade, a esperança da moda francesa, nas palavras de Adrian Jofe, diretor executivo da Comme des Garçons, elogiado por críticos e adorado pelas influencers do street style internacional e por personalidades como Rihanna, Solange, Beyoncé, Miley Cyrus, Selena Gomes, Kendall Jenner e Kim Kardashian.   

Cada uma de suas coleções conta a história de uma mulher francesa e começam com A ou O, numa alusão ao filme O Desprezo, do cineasta franco-suíço Jean-Luc Godard. “Sempre fui obcecado por essa história. É tão francesa. Les Santons de Provence (Os Bibelôs da Provence), L’Amour d’un Gitan (O Amor de um Cigano). Minhas coleções são sempre pensadas como um filme francês”, pontua, também em entrevista à revista Elle.  

Além do cinema, seu trabalho tem como inspiração a sua mãe. La Bomba, a coleção Primavera 2018 da sua marca, por exemplo, tem inspiração na cultura espanhola, mas bebe, e muito, do lifestyle sulista dela, região da França em que, nas palavras dele, as mulheres “são mais simples e sorridentes”. O vídeo de divulgação, filmado nas Ilhas Canárias, mostra modelos curtindo um dia ensolarado em uma paradisíaca vila espanhola, em um clima leve e sensual totalmente conectado com o mood da sua marca. “A Jacquemus é solar. Tem uma luz nela”, afirma.

Postado em

OLIVIERO TOSCANI, O PROVOCADOR

Foi em uma época em que publicidade e política pouco se misturavam que ele inscreveu seu nome na história como um fotógrafo criativo, ousado e, acima de tudo, polêmico. Impossível pensar em fotografia entre os anos 80 e 90 sem se lembrar do nome de Oliviero Toscani. Diretor de arte da marca de roupas italiana Benetton por 18 anos, ele assinou campanhas controversas sobre temas delicados, como racismoreligião direitos humanos, que transformaram a publicidade no mundo. 

 
Em 1991, ele apostou na ideia da tolerância e da diversidade cultural e trabalhou com modelos negros, brancos e  asiáticos (uma das imagens mais marcantes é a de uma mulher negra amamentando um bebê branco). No ano seguinte, causou polêmica com a Igreja Católica ao trazer uma imagem de uma freira sendo beijada por um padre (até hoje uma de suas fotografias mais conhecidas).   


Em 1993, abordou a importância da conscientização para o HIV e a exclusão social sofrida por pessoas soropositivas. Uma das imagens da campanha, que trazia o ativista David Kirby, em seu leito de morte, cercado por sua família, causou uma comoção no mundo inteiro. “As pessoas gostam de uma realidade agradável, não querem ver a realidade tal como ela é. As pessoas dizem que as minhas fotos são ‘chocantes’, mas ‘chocante’ é a realidade que elas preferiam não ver”, afirmou ementrevista ao jornal O Observador.   

Toscani nasceu em Milão, no ano de 1942, e cresceu em uma Itália em reconstrução após a Segunda Guerra Mundial. Influenciado pelo pai, Fedele Toscani, que era fotógrafo do jornal Corriere della Sera, começou a fazer os seus primeiros registros na adolescência. Formou-se em fotografia na tradicional escola de artes visuais Kunstgewerbeschule, de Zurique, e iniciou a carreira fazendo editorais para as principais revistas de moda da Itália, como VogueElle e Harpers Bazaar. Na década de 1970, trabalhou com Andy Warhol

Com o tempo, o seu trabalho começou a chamar a atenção de marcas como Chanel, Valentino e ele logo migrou para o universo da publicidade no qual faria o seu nome. Após quase 20 anos, Toscani deixou a Benetton (após uma polêmica campanha envolvendo imagens de prisioneiros) e levou seu estilo de fotografar para outras marcas e realizou alguns projetos pessoais. “Eu conto uma história com imagens relacionadas ao momento da história em que estou inserido”, disse em entrevista ao The Guardian.

Em 2005, assinou a campanha da Ra Re, na qual dois homens apareciam se beijando e se tocando. O trabalho gerou polêmica com o Instituto italiano de Autodisciplina Publicitária (IAP), que tentou proibir a veiculação da propaganda. Dois anos depois, o fotógrafo realizou uma campanha contra a anorexia para a marca No-l-ita, que trouxe imagens da modelo e atriz francesa Isabelle Caro, que sofria da doença desde os 13 anos. Acusado de sensacionalista, Toscani se posicionou: “Há anos me ocupo do problema de anorexia. Quem são os responsáveis? No geral, os meios de comunicação, a televisão, a moda. Eu quis despertar as pessoas para as consequências desta doença que atinge cada vez mais manequins.”

Em 2017, o fotógrafo foi convidado a retomar o antigo posto na Benetton, após um hiato de 17 anos, como parte de uma estratégia de reposição da marca no mercado, que em 2017 perdeu 46 milhões de euros. Aos 75 anos, Toscani segue em atividade e com a consciência do impacto do seu trabalho. “Lembram-se de alguma campanha publicitária da Zara nos anos 90? Lembram-se de algum editorial de moda da Vogue dos anos 80? Vá lá, façam um esforço. Então não se lembram de nada? E da Benetton? De quantas imagens se lembram?”, provocou na coletiva de imprensa de anúncio do seu retorno.   

Fotos: Campanha “United Colors of Benetton”.

Postado em Deixe um comentário

CONHEÇA A PINACOTECA, O MAIS ANTIGO MUSEU DA CIDADE

Conhecer prédios históricos, museus, ruas e comércios é uma maneira eficaz de vivenciar a cidade em que se mora. Em São Paulo, há inúmeros locais que oferecerem uma experiência única da cidade e podem ser visitados de carro, ônibus, metrô, trem e bicicleta.  

A Pinacoteca é um deles. Instalado no prédio que abrigou o Liceu de Artes e Ofícios, projetado por Ramos de Azevedo em 1897, é o mais antigo museu da capital e tem como foco a arte visual brasileira produzida entre os séculos 19, 20 e 21. Quando inaugurada, em 1905, a Pinacoteca possuía apenas 26 pinturas de artistas da cidade. O evento de inauguração contou com a presença do então presidente da República, Rodrigues Alves, do presidente do Estado, Jorge Tibiriçá e de outras autoridades.  

Atualmente, o espaço mantém um acervo de 11 mil obras composto por pinturas de importantes artistas paulistas, como Almeida Júnior, Pedro Alexandrino, Antônio Parreiras e Oscar Pereira da Silva e Almeida Júnior, Pedro Alexandrino e Oscar Pereira da Silva, além de Cândido Portinari, Anita Malfatti, Victor Brecheret, Tarsila do Amaral e Di Cavalcanti. O museu realiza cerca de 30 exposições anualmente e recebe cerca de 500 mil visitantes durante o período.  

De 1993 a 1998, o museu passou por uma ampla reforma chefiada pelo arquiteto Paulo Mendes da Rocha. O projeto, elogiado em todo o mundo, foi considerado um ótimo exemplo da união entre arquitetura antiga e moderna e conquistou, no ano 2000, o Mies Van der Rohe, um dos mais importantes prêmios da Arquitetura no mundo.

MEMORIAL DA RESISTÊNCIA
Em 2004 a Pinacoteca incorporou o edifício do Largo General Osório que, originalmente, pertencia à companhia Estrada de Ferro Sorocabana e servia de armazéns e escritórios do empreendimento. O prédio foi reformado pelo arquiteto Haron Cohen e rebatizado de Estação Pinacoteca, ou Pina_Estação, e recebe parte do programa de exposições temporárias do museu.  

No térreo do espaço, funcionou, entre os anos 1940 e 1983, a sede do Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo (Deops/SP), uma das polícias políticas mais truculentas do país, principalmente durante a Ditadura Militar. Após a incorporação ao museu, foi instalado no local o Memorial da Resistência de São Paulo que tem o objetivo de preservar as memórias da resistência e da repressão política do Brasil. No local, estão preservados parte dos registros do antigo órgão de repressão e há uma cela restaurada aberta para visitação. 

O Memorial da Resistência de São Paulo é, desde 2009, membro institucional da Coalizão Internacional de Sítios de Consciência, uma rede mundial que agrega instituições constituídas em lugares históricos dedicados à preservação das memórias de eventos passados de luta pela justiça – o Museum of Women’s Resistance (MoWRe), sobre feminismo, e o Memorial de Auschwitz, dedicado às vítimas do nazismo, integram a mesma rede.

PRIMEIRO JARDIM PÚBLICO DA CIDAD


Localizado ao lado do prédio da Pinacoteca, o Jardim da Luz abriga obras de Amilcar de Castro, Marcelo Nietsche, Leon Ferrari e Lasar Segall. Tombado como patrimônio histórico, o espaço foi a primeira área de lazer da cidade, criada em 1798.  

Até meados do século XIX, o jardim era pouco frequentado pelos paulistanos, mas a partir da inauguração da Estação da Luz, em 1867, e da instalação de um observatório astronômico, o lugar passou a ser parada obrigatória não apenas dos moradores da cidade, mas também dos viajantes que chegavam à capital de trem vindos do interior do Estado ou de Santos.  

No ano de 1930, o museu foi ocupado pelo exército durante dois meses e transformado em quartel-general. Dois anos depois, o prédio foi ocupado novamente durante a Revolução Constitucionalista.  

SERVIÇO 
Endereço: Praça da Luz, 02 – em frente à estação Luz do Metrô e da CPTM
Horário de funcionamento: de quarta a segunda, das 10h às 17h30
Ingressos: R$ 6,00, sendo R$ 3,00 reais a meia-entrada para estudantes com carteirinha (aos sábados a entrada é gratuita) 
Informações: (11) 3324-1000 e pinacoteca.org.br
Informações adicionais: a Pinacoteca possui bicicletário e estacionamento gratuitos.

Postado em

A OCUPAÇÃO DOS ESPAÇOS PÚBLICOS

São Paulo tem vivido um momento interessante enquanto cidade: a ocupação dos espaços públicos. Reconhecida historicamente como um local no qual as pessoas viviam apenas para trabalhar e fazer dinheiro, a cidade foi, durante décadas, pensada no individual e nunca no coletivo. Não à toa, a ampliação e a melhoria dos sistemas de transporte coletivo nunca foi uma prioridade, ao passo que a criação de avenidas sim. Uma cidade pensada para carros e não para pessoas.

O cenário começou a mudar nos últimos anos, motivado principalmente por uma demanda da população e incentivado por artistas e ativistas que entendem que são as pessoas que dão sentido e vida a uma cidade. “Pessoas nas ruas tornam as cidades seguras”, analisa o multi-artista Felipe Morozini, um dos grandes incentivadores desse fenômeno urbano.

Ele é o criador do premiado projeto de intervenção urbana Jardim Suspenso da Babilônia que, em 2010, desenhou dezenas de flores com cal por todo o Minhocão, deu voz a um desejo da população, chamou a atenção das autoridades e iniciou um debate para transformar o espaço em uma área de lazer. “O Parque Minhocão só pode ser chamado de parque devido a este fenômeno de ocupação urbana. Como pode um lugar que não oferece nenhum atrativo de conforto ser tão importante afetivamente para uma população? Por que resolveram usar o elevado como lazer? Como esta ocupação aconteceu e quais são seus pontos positivos para cidade?”, questiona. “Ao contrário de projetos como o High Line, de Nova York, aqui em São Paulo são as pessoas que estão ocupando e ditando o que vai ser feito, não é a Prefeitura com a iniciativa privada que vai fazer daqui um lugar turístico”, acrescenta.

Morozini reforça que a ideia de ocupação dos espaços públicos é um assunto recente, de pouco mais de cinco anos, e que reflete um momento vivenciado na cidade, uma mudança de comportamento. Um novo jeito de pensar, de viver e de conviver. “Antes, quando eu convidava as pessoas para vir tomar sol no Minhocão, me chamavam de louco. Hoje, acham super legal e vem todo mundo, trazem os filhos, amigos deixam as bicicletas dos filhos na minha casa. Tem muita gente pensando nessa cidade, nessa nova cidade, que não é “carro-dependente”. Novas alternativas de mobilidade, de locomoção”, afirma.

Postado em

QUEM VEIO ANTES DE SOFIA COPPOLA?

A entrega do prêmio de “Melhor Diretor” para Sofia Coppola no Festival de Cannes  foi um dos pontos de maior destaque da edição de 2017 do evento e levantou a discussão sobre a pouca representatividade feminina no tradicional festival de cinema. Isso porque Sofia foi a segunda mulher a angariar o título em 71 anos de história da prestigiada premiação francesa. 

A primeira foi a russa Yuliya Solntseva, em 1961, que recebeu o troféu por A Epopeia dos Anos de Fogo (Flaming Years). O filme aborda a resistência russa à invasão nazista durante a Segunda Guerra Mundial e chamou a atenção do júri de Cannes principalmente por seus aspectos técnicos inovadores – movimentos radicais de câmera e experimentações com som e narração. 

Apesar do prêmio, Yuliya teve o seu trabalho ofuscado pelo de seu marido, Alexander Dovzhenko, considerado um dos quatro principais cineastas russos da primeira fase do cinema e a mente criativa de obras consagradas como Zvenigora (1928), Arsenal (1929) e Terra (1930). A vitória de Sofia em Cannes resgatou não apenas o nome de Yuliya, como também o interesse no seu trabalho e a sua importância para a história do cinema soviético. Tanto que o Museum of the Moving Image, de Nova York, realizou uma retrospectiva com as principais obras de Yuliya.

 

MUITO MAIS QUE UMA MÃO INVISÍVEL  

Yuliya começou como atriz, ainda no período do cinema mudo, e ganhou fama nacional ao estrelar Aelita, em 1924, considerado o primeiro filme de ficção científica russo e uma das principais inspirações do cineasta Fritz Lang para a criação do clássico alemão Metrópolis. 

Foi a partir do casamento com Dovzhenko que ela passou a atuar atrás das câmeras, como assistente de direção. Após a morte do marido, em 1956, ela decidiu finalizar os projetos inacabados do marido, incluindo as ideias dos filmes que se tornariam as suas produções mais conhecidas: Flaming YearsPoem of an Inland Sea (1958) e The Enchanted Desna (1964). “Se Dovzhenko estivesse vivo, eu nunca teria me tornado uma diretora; tudo o que faço é considerado como uma defesa e uma ilustração do trabalho dele”, declarou na época. 

Embora minimizasse o seu papel criativo nas produções, os três filmes deixaram claro que Yuliya era muito mais que uma mão invisível apoiando o legado do marido e que possuía uma linguagem própria. Tanto que chamou a atenção de nomes como o de Jean-Luc Godard, que era fã de The Enchanted Desna. Em sua trajetória como diretora, Yuliya dirigiu 14 filmes, realizados entre 1939 e 1979. Produções que se destacam pela linguagem poética das narrativas e pela experimentação sonora. 

Postado em

CINCO PRÉDIOS DE REFERÊNCIA ARQUITETÔNICA QUE VOCÊ PRECISA CONHECER EM SÃO PAULO

Reconhecida como a maior cidade do país e uma das grandes metrópoles do mundo, São Paulo tem na arquitetura (e também na não-arquitetura) uma de suas características mais marcantes, composta por estilos diversos que vão do Clássico ao Moderno e do Pós-moderno ao Contemporâneo. Para a arquiteta Manoela Beneti, a composição da cidade é muitas vezes caótica, mas possui pontos altos e muito expressivos em alguns exemplares arquitetônicos. Ela selecionou cinco prédios que, na opinião dela, exemplificam bem essa essência arquitetônica paulistana e valem a pena conhecer:

MASP

“Projetado por Lina Bo Bardi na década de 1950, o Museu de Arte de São Paulo é um marco da Arquitetura Moderna brasileira. Com 11 mil metros quadrados, a construção demandou tecnologia de grandes pontes para segurar os dois andares suspensos que compõem o prédio. Em seu grande vão livre de 74 metros – reconhecido como o maior da América Latina – se dá a mágica de sua arquitetura. É naquele grande vazio, ocupado por pessoas, sejam elas passantes, em atividades culturais, comerciais ou em manifestações populares, que acontece um verdadeiro respiro urbano e uma ponte visual com a Avenida Nove de Julho.”

SESC POMPEIA

“Também projetado por Lina Bo Bardi na década de 1970 e desde 2015 tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como Patrimônio Cultural, o espaço é palco para shows, exposições e outras atividades artísticas importantes. Entre suas grandes qualidades está o fato de ser um complexo requalificado. Originalmente um complexo fabril abandonado (terreno de uma antiga fábrica de tambores da década de 1930), a área foi revitalizada e ressignificada, algo fundamental sob o ponto de vista da sustentabilidade e da vitalidade do tecido urbano ao redor. A intervenção/projeto de Lina, considerada uma iniciativa de vanguarda na época e ainda hoje pouco replicada, promoveu uma transformação estupenda e criou um conjunto que é uma das principais referências de lazer e cultura da cidade. Ali podemos ver camadas históricas diferentes, bem como camadas de técnicas construtivas distintas e soluções pitorescas, como as incríveis “janelas-buraco” criadas pela arquiteta. Não à toa, o prédio foi eleito em 2016 pelo jornal britânico “The Guardian” como uma das dez melhores construções e estruturas em concreto do mundo.”

COPAN

“Um ícone de São Paulo, cujo desenho curvo se destaca das linhas retas do entorno e traz leveza à massa do centro, atraindo os olhares. Dos grandes exemplos de arquitetura moderna e de convivência coletiva, recebe e articula milhares de pessoas, ajudando muito no povoamento do Centro, que passa por processo de esvaziamento há algumas décadas, não só em São Paulo, como em outras cidades brasileiras – ou seja, é vital para o ecossistema da capital. Projetado na década de 1950 por Oscar Niemeyer, o Copan está registrado no Guinness Book como o maior prédio residencial do mundo e é a maior estrutura em concreto armado do Brasil. Composto por seis blocos, 35 andares, 1.160 apartamentos, conta com diversas lojas e galerias e mais de cinco mil habitantes, de diferentes idades, perfis e classes sociais. Visitá-lo é uma experiência de grande riqueza antropológica, arquitetônica e urbana.”

SESC 24 DE MAIO

“Projetado pelo arquiteto Paulo Mendes da Rocha e instalado no centro da cidade, no antigo prédio da rede Mesbla, o complexo arquitetônico tem 13 andares, um teatro no subsolo e uma piscina enorme, de 625 m², no terraço com vista panorâmica. Inaugurada em 2017, a obra é um importante símbolo do processo de revitalização do Centro vivenciado pela cidade nos últimos anos. Entre suas grandes qualidades está o sistema de circulações com rampas que, como diz o próprio Paulo Mendes da Rocha, funcionam como uma extensão da rua e promovem um ritmo de passeio por São Paulo. A iniciativa capta o fluxo de pedestres para dentro do prédio, de maneira generosa e convidativa, como a cidade e as pessoas tanto necessitam.”

MUBE

“Também concebido pelo arquiteto Paulo Mendes da Rocha e inaugurado em 1995, o prédio do Museu Brasileiro da Escultura possui uma característica fundamental para a arquitetura bem inserida na cidade. Seu desenho fala mais de espaço do que de prédio. Os espaços típicos de um museu estão abaixo do nível do piso da praça aberta, que é avistada da rua e realçada pelo grande pórtico composto por uma longa viga. Hoje, cercado por grades, o prédio originalmente foi concebido por esse grande arquiteto sem nenhum tipo de contenção e, com toda generosidade, oferecido para a cidade. Considerada um dos destaques da arquitetura brutalista mundial, a obra conta com um jardim idealizado por Burle Marx e recebe exposições, além de abrigar uma feira nos finais de semana.”

Visitar estes prédios é uma maneira interessante e leve de conhecer e entender melhor São Paulo, uma cidade de tantos contrastes e diversas camadas históricas. Viva essa experiência!